Desporto: Poção Mágica

29 03 2008

charge1981.jpg

Concentração

Rita estava de olho em José. Tentava fisgar o rapaz de tudo quanto era jeito: teatro, estudo na biblioteca, “um restaurantinho especial lá na Lapa”… José não queria compromisso. Aliás, adorava secretamente sua fama de conquistador.

1º Tempo

Numa quinta-feira, tocou o telefone na casa da garota. Após dois minutos de conversa, Rita correu para o quarto, se produziu e saiu linda como nunca. Disse para a mãe que aquele seria o dia. José havia sido premiado num festival de cinema e queria comemorar com seus “amigos íntimos”. Rita tomava conhecimento então desta intimidade.

Doze pessoas na mesa. Ela ao lado dele, sempre. Quarta rodada de bebidas, já havia falado sobre o último lançamento de Nelson Pereira dos Santos, de como admirava Antonioni, sobre sua aversão a Manoel de Almeida; citou Allen, Godard, Saura, Moodysson, Altman, Zoncka – havia feito a lição de casa.

2º Tempo

Rita foi ao banheiro retocar a maquiagem. Olhou para o espelho decidida, sabia que quando voltasse tornaria concreto aquilo que ambos, ela e José, estavam sentindo um pelo outro. Voltou para a mesa e o músico que se apresentava naquela noite chamou o rapaz para uma canja. José tocava um cavaquinho sem vergonha, mas era o novo orgulho do bairro; havia até dado o troféu do festival para seu Osório, dono do bar, que o colocou numa estante especial, junto com artigos e fotos de “notáveis da região”. Rita podia esperar mais um pouco.

Prorrogação

Após executar duas canções do Cartola e uma do João Nogueira, José estava de volta em sua cadeira. Sentia-se cansado, emocionado e alegre como nunca. Sorriu - aquela imagem ela nunca esqueceu. Rita o chamou; ele não ouviu. Teresa sentou-se do outro lado. Rita chamou-o mais uma vez, agora timidamente; Teresa disse “parabéns”, quase ao mesmo tempo. José segurou a mão de Rita e olhou para Teresa, que usava uma corrente com um pequeno pingente onde havia gravado o escudo do Flamengo. Sorriu – aquela imagem ela nunca esqueceu. Cinco minutos de conversa e Teresa escalou o campeão mundial de 81: “Raúl, Leandro, Mozer, Marinho, Júnior… Espera aí, péra aí… Tita, Andrade… Lico, Zico, Nunes…”. Faltava um, e José a disse que se acertasse, lhe daria um beijo.

Súmula

Rita odeia futebol e mais ainda cinema. Também passou a odiar José e Teresa, que tiveram quatro filhos. O mais velho, Adílio.

zicohitchcopia.jpg

por Thiago

 





Paulistano e Paranóico: Embate com a máquina de café

29 03 2008

vendingpic.jpg

Eu posso suportar muita coisa nessa vida. Eu posso trabalhar além do tempo estipulado, receber um salário simbólico, ficar com fome, sono, sede. Mas, rapaz, não tire de mim o meu café.

Não tire de mim o meu café.

Nada instiga em mim instintos primários de fúria como a falta de cafeína correndo por minhas veias. O café é a bebida do pensamento, a bebida do trabalho. É a senhora escura da modernidade que rege tanto os poetas quanto os burocratas.

Na verdade, vi certa vez um documentário interessante que tratava da transferência da cerveja para o café como bebida da preferência no final da Europa medieval. Para um modo de produção industrializado, o objetivo deixou de ser o torpor controlador de massas da cerveja para uma bebida mais business como o café. Mas, enfim, isso é outro assunto.

O fato é que enquanto não desenvolvem cafeína intravenosa (está lançada aqui a idéia para os cientistas), o café ainda precisa ser ingerido oralmente. Cheirar carreiras de pó de café não dá certo. Acredite em mim.

E é pra isso que eu uso aquela máquina do capeta lá na faculdade. Eu já me estranhei com ela outras vezes. Vez ou outra quando eu colocava as moedinhas ela “esquecia” de contar o valor de algumas delas. Eu colocava 60 centavos e ficava brilhando um 50 no visor como que caçoando de mim. A gente percebe que um país está inundado até o pescoço em corrupção quando até a máquina do café exige a parte dela pra facilitar a liberação de uma coisa que é sua por direito. Eu, como bom cidadão mediado complacente, pagava os 10 centavos a mais. Mas dessa vez ela foi longe demais.

Entenda, leitor, como todo funcionário corrupto, a máquina de café se tornou mais gananciosa com o tempo. Os 10 centavos aqui e ali não satisfaziam mais a fome da besta e ela me fez pagar 4,60 reais por um café curto.

Tremi naquele dia, quando percebi que não tinha mais moedas e apenas uma nota de 5 reais na carteira. Com a nota em mãos, eu hesitava em colocar o dinheiro na entrada que lambia os beijos em antecipação pelo dinheiro. Olhei bem para a frente da máquina em busca de informações sobre se algum valor de notas não era aceito, perguntei para transeuntes se eles achavam que a máquina ia engolir. Mas o meu vício cego pela ambrósia negra falou mais alto que o meu apego ao dinheiro e eu inseri a nota com a nítida sensação de que havia cometido um grande erro. E não deu outra.

A filha da puta me deu aquele café meia-boca de sempre e 40 centavos de troco.

Vi depois nas instruções, que estavam em um quadrinho camuflado, que a máquina aceita apenas notas de 1 real e de 10. Eu gostaria muito de conhecer e apertar as mãos do gênio do mal que concebeu esse tipo de armadilha para o consumidor. Um layout do tipo “letrinhas miúdas no final do contrato” que permite ao mesmo tempo afirmar que avisou, e esconder as instruções do comprador desavisado. Notas de 1 e 10 e não de 5? Não me entra na cabeça a lógica por trás disso!

Depois de bater em frustração na máquina e chafurdar os dedos no vão do troco (pelo menos alguém esqueceu 10 centavos lá, lucro pra mim), eu aceitei minha derrota frente o monolito e voltei cabisbaixo para a aula. E o café estava ainda pior que o normal.

por Solari





Cultura e Adjacências: Ouse Pedir um “Café do Dia”…

26 03 2008

starbucks-baristas.jpg

Seguinte: dê uma chegadinha em qualquer unidade da rede Starbucks e peça a bebida mais simples, o “Café do Dia”, que nada mais é do que um café puro de máquina. Caso esteja com um mínimo de pressa, sua paciência irá para o espaço. Explico: algumas franquias internacionais populares no exterior chegam aqui e voltam-se para um público de maior poder aquisitivo, muito provavelmente pelo alto investimento combinado com o menor poder de consumo da população em nosso país; e o mais interessante é que muitas vezes o objeto do negócio recai sobre uma idéia que não se aproxima de forma exata da original. Nos Estados Unidos, por exemplo, o “Café do Dia” é entregue no momento da compra, raramente não está pronto - com certa freqüência, o próprio funcionário do caixa dirige-se à máquina, enche o copo e entrega o pedido. Aqui, a Starbucks é vista como uma grife de drinques exóticos à base de café. Quer tomar um café puro? Vá na padaria e peça um expresso, diabo! Caso contrário, compre sua fichinha e espere todos os frapuccinos, mocaccinos e outros inos - mesmo daqueles que passaram pelo caixa depois de você - ficarem prontos rapidamente, enquanto seu pedido, caro weirdo consumidor de “Café do Dia”, arrasta-se no tempo rumo à materialização!

(foto1:http://laist.com/attachments/la_zach/starbucks-baristas.jpg)

por Thiago





Tecnosfera: Obvious

26 03 2008

obviousedit2.jpg

clique na imagem acima para conferir o blog Obvious

Essa dica é para os apreciadores da fotografia artística, com ênfase na arquitetura. O Obvious é um blog conjunto de colaboradores que se não me engano são de diferentes nacionalidades, e escrevem sobre o Rio de Janeiro, Madri, Nova Iorque e outras cidades. Não sou especialista em fotografia, confesso que até tenho até certa ressalva com a fotografia artística em geral salvo raríssimas exceções (por favor, poupem-me das pedradas).

No entanto, o Obvious me dobrou. Até mesmo pra mim que sempre se sentiu um leigo nesse quesito, o uso de formas, cores, sombras, temas, texturas, enfim… pra que gastar milhares de palavras tentando descrever as imagens? Convido os leitores do Depressão pós-cafeína a investirem um pouco do seu tempo conferindo o Obvious.

As fotografias são acompanhadas por textos relacionados às imagens, mas mesmo sendo eles de qualidade indiscutível, essa parte do blog já não me atrai tanto salvo um ou outro texto. Gosto quando os escritos são mais explicativos e históricos, porém os de ficção tem sucesso irregular para o meu gosto.

gigerbaredit.jpg

Gostaria de sugerir três matérias em particular para os leitores do Depressão pós-cafeína: O belíssimo ensaio sobre o bairro da Lapa no Rio de Janeiro e a série de fotografias de bonecas postadas pela carioca Priscilla Santos. E também o artigo sobre o museu do artista plástico suíço H. R. Giger, que concebeu o Alien para o filme de Ridley Scott de mesmo nome. O bar do sujeito, que pode ser visto na foto acima, não é exatamente o lugar mais convidativo para se tomar uma cerveja com os amigos.

por Solari





Desporto: A Arte de Valderrama

22 03 2008

va2.jpg

Sabe aquele tipo de consultoria empresarial que analisa a estrutura e divisão do trabalho em uma empresa? Aqueles caras que realizam um check-up funcional, descobrem o que todo mundo faz e verificam se há repetição de trabalho, alguém sobrecarregado, outro alguém no mais puro ócio, etc.? “A” entrega o documento pra “B”, que por sua vez o leva pra “C”. Por quê o tal do “A” não leva o documento diretamente para “C”?!

Faço essa introdução para falar de Carlos Valderrama. Esse enganou! Tratado em seu país como um meia refinado e reverenciado por muitos pela ótima visão de jogo, Valderrama foi o atleta que mais deu passes curtos – e seguros! – na história do esporte bretão. Possuía uma ginga 171, um movimento de olhar para o lado que parecia indicar que sabia o que estava fazendo, passava os pés sobre a bola como se aquilo fosse um cartão de visitas de seu potencial, dava curtos piques em espaços que o próprio marcador não achava necessária uma aproximação; ou seja, tudo meticulosamente programado para sustentar aquela camisa 10 que havia caído do céu. E se tudo isso não funcionasse: toquinho para o lado.

A marca de Valderrama era seu cabelo - outro truque para desviar a atenção de todos. Semiótica pura: o que não reconhecemos nos deixa perturbados, sem ação. Aquele ninho na cabeça do camisa 10 colombiano desorientava seus adversários, por mais acostumados que estivessem. Valderrama, na verdade, só pensava em manter o emprego. Provavelmente aos 20 anos já sonhava com uma velhice tranqüila. No mundo corporativo, seria aquele cara que executa alguma função prestes a ser extinta por um aparato tecnológico ainda não adquirido pela empresa por conta de alguma política de contenção de custos. Seu demônio seria ser treinado por um técnico com visão como a da tal consultoria empresarial sobre a qual escrevi no início do texto.

Hoje, escrevo minha primeira coluna esportiva no “Depressão”. Não conseguia encontrar um bom tema para explorar, confesso. Resolvi então enrolar um pouco, e escolhi o personagem mais adequado para tanto. Fica aqui nossa homenagem.

474829739.jpg

 

(foto1: www.thefa.com)

(foto2: us.news1.yimg.com/us.yimg.com/i/fifa/gen/xp/20060130/i/474829739.jpg)

 por Thiago





Paulistano e paranóico: O meu gato odeia mandarin

22 03 2008

amao.jpg

Ele pode parecer bonitinho, mas eu não chegaria muito perto se fosse você.

A primeira vez que ele manifestou sua aversão ao mandarin foi há mais ou menos nove meses. Estava começando a aprender o idioma chinês. Fiz algumas aulas, comprei um livro no qual comecei a me alfabetizar nos caracteres. Tomei o hábito também de ouvir o CD de pronúncia de um método interessante, feito para brasileiros que estão aprendendo a língua, e de pronunciar as frases enquanto desempenhava tarefas do dia-a-dia.

Até que certo dia o felino se grudou com as garras nas minhas costas enquanto eu lavava louça e repetia os meus 我是巴西人你呢s. Depois de me desvencilhar do danado - ele grudou de verdade, precisei me debater um pouco - passei uma água oxigenada nos cortes e olhei pro gato. O safado agora era a perfeita imagem da calma, dormindo tranqüilamente no sofá, como se nada tivesse acontecido. Tratei o assunto como mera aberração no comportamento do bichano e segui com minha vida.

Alguns dias depois estava estudando na sala. Estava entretido na repetição dos diferentes tons, coisa delicada no mandarin. Dependendo de como você pronúncia a mesma sílaba “ma”, por exemplo, você pode falar “mãe”, ou “quatro”, ou “cavalo”, ou “cansado”. Ouvir em chinês a frase “a mamãe está cansada de ver os quatro cavalos cansados” é no mínimo interessante.

Tinha certa dificuldade em diferenciar o segundo tom, que é semelhante ao que usamos em português quando fazemos uma pergunta, com o terceiro, que é mais longo e sobe e desce na mesma sílaba. E entre os meus estudos de 谢谢s e 你好s, não deu dez minutos e eu estava me debatendo pela sala com um bichano assassino nas costas.

Agora, eu sou um cara paciente, não descontei fisicamente a minha frustração no bicho e continuei a estudar na minha, mas eu SENTIA ele me espreitando. Comecei a ler de costas para a parede para não poder ser surpreendido, mas ele então avançou no meu pé.

Foi interessante também quando eu colocava o som num volume alto. Mais de uma vez ele pulou sobre a mesa e bateu com as batas contra a caixa de som, se eriçando até perder o interesse depois de alguns minutos. É, eu não tinha a tolerância à dor da caixa de som para agüentar um gato dilacerando as minhas costas até cansar.

Levantei algumas explicações sobre o fenômeno, nenhuma completamente satisfatória. Cheguei a pensar que pode ter a ver com o timbre da voz, sei lá. A Cecília falou que ele não gosta de chinês porque eles comem gato na China e de alguma forma ele presentia o perigo com uma espécie de “sentido aranha” como nos quadrinhos. Eu expliquei pra ela que na China eles não comem gatos, mas, quem diria, tem lugares que a churrasco de felino é sim bastante apreciado.

Levantei outras hipóteses como conspiração governamental (uma máquina de matar desenvolvida por alguma entidade secreta para enfrentar o comunismo?). Porém o assunto acabou caindo em desuso na minha cabeça. Depois de um tempo ele ficou mais calmo, não sofro um ataque já há alguns meses. Bem, ou é isso ou eu é quem estou ficando mais esperto na hora de perceber ele sorrateiro olhando pras minhas costas.

por Solari





Cultura e Adjacências: Dylan Pianinho

20 03 2008

dylan32.jpg

Muito se reclamou da recente apresentação de Bob Dylan em São Paulo:

1 - O sujeito não deu sequer uma olhadinha para o (tão) fiel público…

2 - Não tocou (o hino) “Blowing in the wind”…

3 - Deixou de lado (sua marca) o violão folk para executar notas em um tecladinho…

Ahhhh….

Sofremos de um complexo incurável: lamentamos nossa pouca participação no circuito mundial de shows - daquilo que representa o novo -, mas exigimos performances “best of” dos artistas que ousam passar por aqui.

Dylan continua produzindo com qualidade; ainda é atual - e complicado demais para definirmos aquilo que dele devemos (?) exigir quando dá as caras no Brasil.

(foto: http://www.rockinsider.com/archive/2007_10_01_archive.html)

por Thiago





Tecnosfera: Os Irmãos Brain

19 03 2008

IrmaosBrainEdit

Clique na imagem para conferir o blog dos Irmãos Brain

O que aconteceria se o Ego o Superego e o Id fossem três irmãos morando na mesma casa? Essa é a premissa dos quadrinhos do blog de humor Os Irmãos Brain, que marca a primeira dica de endereços da internet do Depressão pós-cafeína.

Os Irmãos Brain é uma ducha de água fria em todos aqueles que reclamam que gostariam de escrever uma tira de quadrinhos, mas não sabem desenhar. Com uma idéia na cabeça e um photoshop na mão, eles fazem montagens simples usando fotos e desenhos que entregam o humor sem firulas artísticas.

O formato do quadrinho, que cresce para baixo, torna mais fácil a leitura no monitor do computador. Essa inovação pode parecer pouca coisa, mas pra mim é uma daquelas soluções que de tão simples são muitas vezes ignoradas. Depois de ver gente de peso dos quadrinhos impressos como Scott Mccloud tentando soluções mais mirabolantes pra internet, é legal ver a solução elegante que o pessoal dos Irmãos encontrou.

irmaosbrainedit2.jpg

Outro aspecto digno de nota é que a qualidade das narrativas são melhores do que as de muitas tiras on-line. Os histórias quase sempre vão pra lados inesperados e bem engraçados, temperando bem o absurdo para as coisas não saírem de mão. Na minha opinião, o absurdo está para a comédia como a pimenta está para a culinária. E por mais que o meu humor goste de um acarajé apimentado, às vezes as coisas vão longe demais no humor da internet e as coisas ficam intragáveis para mim.

Outro artifício interessante é o de basear os personagens nos três princípios da psique desenvolvidos por Freud, que a essa altura do campeonato viraram mais referências pop do que academicismos. O Id é a fonte da maioria das gargalhadas, aquele que sempre fala antes de pensar e pensar é facultativo. O pobre do Superego é, ou tenta ser, castrador e se desespera com as situações nas quais o Id se mete. O Ego então, é estudioso e gente boa, mas ele precisa aprender a se divertir mais.

por Solari