
Rio sempre que me falam que a Virada Cultural ocorre apenas uma vez por ano, quando tenho diversas viradas culturais por semana lendo os clássicos da literatura no conforto de minha residência. Sair pra ficar se espremendo no meio de uma multidão suada pra quê?
Mas vocês sabem como é Mamãe: “Sai pra ver gente, filho. Sai pra ver gente, filho. Sai pra ver gente, filho.” Chega uma hora em que eu ligaria pro Diabo em pessoa só para me afastar do som de sua voz, que rivaliza em estridência com o das castanholas de bronze de Atena.
Ao bater o olho na programação foi aquele desgosto. Era um tal de hip hop pra cá, rap pra lá e um sem número de artistóides do momento cujos nomes eu nunca vira antes. No entanto, depois de algum tempo de caça no site do evento encontrei uma opção digna de minha presença: recital de poemas eróticos na Casa das Rosas. “O quão ruim pode ser?”, me perguntei em minha ingenuidade.
Apesar de não me julgar profundamente versado na arte de Baudelaire, um poema intitulado “Bucetomaquia” nunca pode ser boa coisa. A noite ganhou ares ainda mais kafquianos quando subiu ao palco um poeta cego com forte predileção por fortes odores nos pés e axilas “da mulher amada”. Juro pra vocês.
O poeta Bocage foi mencionado em determinado momento, como influência dos poetas ali presentes. Era possível escutar o poeta português raspando as garras contra a madeira de seu caixão no qual descansa há 200 anos em Setúbal. Demorasse a apresentação mais tempo, não me surpreenderia que ele se levantasse da terra e atravessasse o Atlântico a nado só para esganar o proferidor de tal relação.
No meio da multidão de meia dúzia de gatos pingados no recital, uma menina de trajes góticos, porém surpreendentemente bonita, acenou para mim à distância, como se me conhecesse. Sorri amarelo de volta, tentando identificar de onde raios conhecia um gótico, uma vez que sempre guardei um desdém especial em meu coração por pessoas que se definem como góticas em um país sem tradição para isso como o Brasil.
É preciso abrir aqui um breve parênteses e explicar minha notória incapacidade de reter os nomes e rostos de conhecidos que eu não considero úteis em minha vida. Lembro do nome e rosto de cerca de três ou quatro pessoas de meu colegial, quase nenhum de minha primeira faculdade, poucos de meu ano anterior na atual faculdade. Se você é meu conhecido, não tem utilidade para minha vida e se passa mais de um ou dois anos… sinto muito, mas sua existência é apagada de minha memória como se você jamais existisse. Acredito que isso ocorra como um mecanismo de economia de meu cérebro, que necessita de toda a capacidade de processamento disponível para a sua entrega à literatura e considerações de cunho metafísico-existenciais.
Esse meu traço de personalidade sempre me trouxe ocasiões desagradáveis nas quais pessoas de meu passado que estão certas de que eu dou a mínima para sua existência me cumprimentam em ocasiões sociais. Costumo responder com o clássico “Oi! Quanto tempo!” seguido de “Você está ótimo(a)!”. A maioria das vezes as pessoas prestam mais atenção no elogio que receberam do que no fato de que você tem poucas informações sobre ela e acabo descobrindo a identidade da pessoa conforme o diálogo prossegue.
Por trás daquele monte de piercings (contei sete no rosto) a gótica misteriosa sorriu pra mim. Me lembrei que ela era da faculdade, agora saber o nome também já era demais e tive que perguntar. Monique. Em seguida me apresentou à sua amiga que também vestia mais piercings na face do que peças de roupa no corpo e que por aqueles curiosos caprichos do destino se chamava Monique também.
“Estamos indo lá pro centro”, me disse Monique. “Você quer ir com a gente?”, completou Monique. Confesso que a perspectiva do show de Tom Zé que ocorreria em seguida não me agradava nem um pouco. Perguntei, que tipo de atração as Moniques tinham em mente no centro da cidade. “A Virada das vampiras”, disse Monique. 24 horas de filmes franceses de vampiras dos anos 70… É. Estava bom demais pra ser verdade. Preferiria dar um tiro no meu próprio pé do que assistir a esse tipo de lixo no meio de um monte de góticos.
No entanto… Ora… O que posso dizer… os góticos se tornam bem mais fáceis de tolerar quando são lindos e do sexo oposto. Dois sorrisos sedutores foi tudo o que precisou para que em 40 minutos eu estivesse na fila com o meu ingresso em mãos para assistir “A Orgia Noturna dos Vampiros”, auto-intitulado clássico de 1973. Era talvez o único na galeria inteira que não tivesse algum tipo de piercing, tatuagem, pulseira de couro e maquiagem no rosto.
Tudo o que posso falar do filme é que ele conseguiu ser ainda pior do que o nome sugere, e me lembrou uma máxima proferida por Picasso: “A diferença entre a genialidade e a burrice é que a genilidade tem limites”. Nada que foi dito é tão verdadeiro quanto isso para explicar “A Orgia dos Vampiros”.
Ainda pretendia espremer alguma coisa positiva com uma possível aproximação com algumas de minhas exóticas acompanhantes. Mas, convenhamos, não sou a pessoa mais versada para conversar sobre, sei lá, crucifixos, métodos de suicídio ou seja lá sobre o quê que essa gente discorra.
De qualquer maneira, um pouco após o início de “Sangue de Virgens” (sim, porque elas me convenceram a assistir a um segundo filme…) Monique e Monique engataram em um amasso acalorado e em pouco tempo saíram da sessão sei lá pra onde. Mas veja se não é a perfeita cereja sobre o sundae de merda que foi a minha noite!
Saí do cinema junto ao nascer do dia. Resolvi caminhar até em casa ao invés de pegar o metrô, para ver o céu clareando gradualmente. Sozinho.
por Solari
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