Tecnosfera: Hello Kitty Hell

30 04 2008

Sempre tive a teoria pessoal de que a Hello Kitty era algum tipo de plano maligno dos exércitos infernais para dominar o planeta Terra. Quando encontrei esse blog, eu tive a confirmação. E pelo visto, as forças do mal estão ganhando a batalha.

O blog Hello Kitty Hell mostra por meio de provas fotográficas a extensão da presença da gatinha japonesa. Ela está em tudo. E quando eu digo tudo eu não quero dizer que existe mochilinha da Hello Kitty e lancheira da Hello Kitty, não. Eu quero dizer que existe máquina de lavar da Hello Kitty, bolo da Hello Kitty, pipa da Hello Kitty, pato de borracha da Hello Kitty, bikini da Hello Kitty, termômetro retal da Hello Kitty, microchip da Hello Kitty, pedras da Hello Kitty, Volkswagen da Hello Kitty, o ovo da Hello Kitty, a guitarra da Hello Kitty, a peruca da Hello Kitty, a cueca da Hello Kitty, o game da Hello Kitty, o rifle automático da Hello Kitty… enfim, acho que deu pra entender.

Mas não acredite na minha palavra! Confira o blog e vocês vão poder encontrar cada um dos itens descritos acima e centenas de outros. Até mesmo já foi apreendidO cocaína da Hello Kitty, conforme visto na foto abaixo (clique na imagem para saber a história por trás desse inusitado “produto”).

Cocaína da Hello Kitty… Não, eu não estou de brincadeira…

Enfim, poderia ficar aqui citando ad absurdum objetos com a Hello Kitty (como o desodorante da Hello Kitty, o papel higiênico da Hello Kitty, o vibrador da Hello Kitty), mas não vou. Gostaria que convidar os ilustres leitores do Depressão pós-cafeína que explorem o site em busca de seus objetos favoritos.

E preparem-se para a nova ordem. Quando a transição das forças das trevas estiver completa e a Hello Kitty finalmente estiver em todo lugar.

por Solari





Extra! Extra!: A Fuga de Gyodai

28 04 2008

Interrompemos a programação normal do Depressão pós-cafeína para trazer um furo sobre a biografia de Gyodai: o episódio “A Fuga de Gyodai”, no qual nosso intrépido herói corre o mundo em busca de um amigo verdadeiro.

Infelizmento o áudio da terceira parte não está sincronizado, mas também convenhamos que isso aqui não é exatamente Shakespeare. Dá pra entender mais ou menos o que acontece.

Em nome do Depressão gostaria de agradecer aos leitores Paula e César por nos contar desse lado mais lírico do nosso querido Gyodai. Vale assistir ao menos pela atuação particularmente tocante quando Gyodai tenta buscar um amigo em seu reflexo na água. Ou quando os integrantes do Esquadrão Relâmpago Changeman se fantasiam de Gyodais para acalmar o pobre montro espacial. Juro pra vocês.

Assista e eu garanto que serão os 18 minutos mais bizarros do seu dia. Se não for… bem, a sua vida deve ser bem esquisita.

por Solari





Paulistano e paranóico: Virada Cultural

28 04 2008

Rio sempre que me falam que a Virada Cultural ocorre apenas uma vez por ano, quando tenho diversas viradas culturais por semana lendo os clássicos da literatura no conforto de minha residência. Sair pra ficar se espremendo no meio de uma multidão suada pra quê?

Mas vocês sabem como é Mamãe: “Sai pra ver gente, filho. Sai pra ver gente, filho. Sai pra ver gente, filho.” Chega uma hora em que eu ligaria pro Diabo em pessoa só para me afastar do som de sua voz, que rivaliza em estridência com o das castanholas de bronze de Atena.

Ao bater o olho na programação foi aquele desgosto. Era um tal de hip hop pra cá, rap pra lá e um sem número de artistóides do momento cujos nomes eu nunca vira antes. No entanto, depois de algum tempo de caça no site do evento encontrei uma opção digna de minha presença: recital de poemas eróticos na Casa das Rosas. “O quão ruim pode ser?”, me perguntei em minha ingenuidade.

Apesar de não me julgar profundamente versado na arte de Baudelaire, um poema intitulado “Bucetomaquia” nunca pode ser boa coisa. A noite ganhou ares ainda mais kafquianos quando subiu ao palco um poeta cego com forte predileção por fortes odores nos pés e axilas “da mulher amada”. Juro pra vocês.

O poeta Bocage foi mencionado em determinado momento, como influência dos poetas ali presentes. Era possível escutar o poeta português raspando as garras contra a madeira de seu caixão no qual descansa há 200 anos em Setúbal. Demorasse a apresentação mais tempo, não me surpreenderia que ele se levantasse da terra e atravessasse o Atlântico a nado só para esganar o proferidor de tal relação.

No meio da multidão de meia dúzia de gatos pingados no recital, uma menina de trajes góticos, porém surpreendentemente bonita, acenou para mim à distância, como se me conhecesse. Sorri amarelo de volta, tentando identificar de onde raios conhecia um gótico, uma vez que sempre guardei um desdém especial em meu coração por pessoas que se definem como góticas em um país sem tradição para isso como o Brasil.

É preciso abrir aqui um breve parênteses e explicar minha notória incapacidade de reter os nomes e rostos de conhecidos que eu não considero úteis em minha vida. Lembro do nome e rosto de cerca de três ou quatro pessoas de meu colegial, quase nenhum de minha primeira faculdade, poucos de meu ano anterior na atual faculdade. Se você é meu conhecido, não tem utilidade para minha vida e se passa mais de um ou dois anos… sinto muito, mas sua existência é apagada de minha memória como se você jamais existisse. Acredito que isso ocorra como um mecanismo de economia de meu cérebro, que necessita de toda a capacidade de processamento disponível para a sua entrega à literatura e considerações de cunho metafísico-existenciais.

Esse meu traço de personalidade sempre me trouxe ocasiões desagradáveis nas quais pessoas de meu passado que estão certas de que eu dou a mínima para sua existência me cumprimentam em ocasiões sociais. Costumo responder com o clássico “Oi! Quanto tempo!” seguido de “Você está ótimo(a)!”. A maioria das vezes as pessoas prestam mais atenção no elogio que receberam do que no fato de que você tem poucas informações sobre ela e acabo descobrindo a identidade da pessoa conforme o diálogo prossegue.

Por trás daquele monte de piercings (contei sete no rosto) a gótica misteriosa sorriu pra mim. Me lembrei que ela era da faculdade, agora saber o nome também já era demais e tive que perguntar. Monique. Em seguida me apresentou à sua amiga que também vestia mais piercings na face do que peças de roupa no corpo e que por aqueles curiosos caprichos do destino se chamava Monique também.

“Estamos indo lá pro centro”, me disse Monique. “Você quer ir com a gente?”, completou Monique. Confesso que a perspectiva do show de Tom Zé que ocorreria em seguida não me agradava nem um pouco. Perguntei, que tipo de atração as Moniques tinham em mente no centro da cidade. “A Virada das vampiras”, disse Monique. 24 horas de filmes franceses de vampiras dos anos 70… É. Estava bom demais pra ser verdade. Preferiria dar um tiro no meu próprio pé do que assistir a esse tipo de lixo no meio de um monte de góticos.

No entanto… Ora… O que posso dizer… os góticos se tornam bem mais fáceis de tolerar quando são lindos e do sexo oposto. Dois sorrisos sedutores foi tudo o que precisou para que em 40 minutos eu estivesse na fila com o meu ingresso em mãos para assistir “A Orgia Noturna dos Vampiros”, auto-intitulado clássico de 1973. Era talvez o único na galeria inteira que não tivesse algum tipo de piercing, tatuagem, pulseira de couro e maquiagem no rosto.

Tudo o que posso falar do filme é que ele conseguiu ser ainda pior do que o nome sugere, e me lembrou uma máxima proferida por Picasso: “A diferença entre a genialidade e a burrice é que a genilidade tem limites”. Nada que foi dito é tão verdadeiro quanto isso para explicar “A Orgia dos Vampiros”.

Ainda pretendia espremer alguma coisa positiva com uma possível aproximação com algumas de minhas exóticas acompanhantes. Mas, convenhamos, não sou a pessoa mais versada para conversar sobre, sei lá, crucifixos, métodos de suicídio ou seja lá sobre o quê que essa gente discorra.

De qualquer maneira, um pouco após o início de “Sangue de Virgens” (sim, porque elas me convenceram a assistir a um segundo filme…) Monique e Monique engataram em um amasso acalorado e em pouco tempo saíram da sessão sei lá pra onde. Mas veja se não é a perfeita cereja sobre o sundae de merda que foi a minha noite!

Saí do cinema junto ao nascer do dia. Resolvi caminhar até em casa ao invés de pegar o metrô, para ver o céu clareando gradualmente. Sozinho.

por Solari





Desporto: Um Outro Grisham

27 04 2008

Nunca cogitei a hipótese de um dia ser interpelado e de certa forma advertido por não ter lido um livro de John Grisham. Tudo bem, “não exageremos”; vincular tal exigência a autores como Proust, por exemplo, seria inadequado para uma conversa informal e aparentemente despretensiosa - mas mesmo algo como “você nunca leu nada do Paul Auster?!”, convenhamos, seria mais aceitável. De qualquer forma, o evento ocorreu em 1999, quando eu cursava o segundo ano da faculdade de direito - e talvez isso tenha inspirado o questionamento da figura, tendo em vista que John Grisham, ex-advogado, escreve majoritariamente histórias que abordam o universo jurídico.

Hoje, quase dez anos depois, posso dizer que li John Grisham - noooossa… Um livro; que nada tem a ver com advogados, promotores, crimes, conspirações, etc. Trata-se de “Nas Arquibancadas”, de 2003 (Bleachers, no título original), que conta a história de Neely Creenshaw, ex-jogador do time de futebol americano da escola de sua cidade natal, que a ela retorna após alguns anos, para o iminente funeral de seu antigo treinador. A cidade retratada por Grisham - como muitas nos EUA - tem poucos habitantes, e nela tudo gira em torno do high school football.

O livro mostra como é ser considerado um verdadeiro deus aos 16, 17 anos; ter a vida facilitada por todos - e por um motivo “legítimo”; e o significado de tornar-se parte de uma tradição e ver tão cedo um universo “aberto” de conquistas pela frente - o que acaba não acontecendo para Neely Creenshaw, por conta de um acidente na faculdade. Grisham traz à tona elementos como educação, comprometimento, coleguismo, honra - e questiona, ao mesmo tempo, os limites para que tais valores sejam tocados. Tudo isso passando pela figura de Eddie Rake, treinador da equipe do colégio por décadas; rigoroso e vencedor - venerado e odiado.

Após ler “Nas Arquibancadas”, nada do que ouvi falar sobre outras obras de Grisham me estimoulou a uma nova leitura, até que me deparei com o seguinte enredo, difícil de ser ignorado, de “Jogando por Pizza”, lançado no ano passado (Playing for Pizza, no original): “O livro conta a história de Rick Dockery, um jogador de futebol americano fracassado, que, após mais um fiasco, não desperta interesse nem mesmo de um time da segunda divisão da liga, até que seu empresário lhe consegue uma vaga no Panthers - não o Carolina Panthers, nos EUA, mas sim o italiano Parma Panthers (que realmente existe, na Itália). Sem saber nada do novo país, Rick chega a Parma com uma promessa e, deixando a frustração de lado, vai aos poucos conhecendo melhor a cidade, a cultura, a maneira como os italianos encaram a vida e, sobretudo, as comidas parmigianas. (…).” Esta resenha, para registro, está publicada no Submarino, e vou logo encomendar meu exemplar - que está em promoção, cerca de R$ 20,00 - para embarcar nessa nova aventura esportiva do autor, que, mais um registro, também jogou futebol americano na escola. Você aí, já leu algum livro de John Grisham???

 

por Thiago





Cultura e Adjacências: Simplesmente Guiodai

23 04 2008

Guiodai

Guiodai é um trabalhador japonês - assim poderia começar um verbete a seu respeito.

Funcionário assíduo, cumpridor de responsabilidades e consciente de sua posição subalterna, o monstrengo, sempre que convocado, dava sua parcela de contribuição até praticamente se esvair.

Considerava a opção pelo lado negro da força - ops, referência errada; reformulando… Considerava a opção pelo império do mal um simples desvio do destino. Não importava quem era seu chefe, desde que tivesse um salarinho, casa e roupa lavada para dedicar-se ao grande projeto de sua vida.

Sim, Guiodai era um idealista. Durante as noites - isso ninguém sabe -, colocava sua lente de contato e buscava nos mais variados compêndios e registros informações sobre a única organização no mundo que realmente admirava: o Sendero Luminoso (e em um bem distante segundo lugar, mas bem distante mesmo, a Beija-Flor de Nilópolis).

Para quem não se lembra ou não sabe nada sobre o assunto, Guiodai ressuscitava os guerreiros do mal abatidos pelo esquadrão Changeman, trazendo-os à luz em proporções gigantescas - e os indivíduos eram derrotados novamente pelo “Change Robô”, mas isso é outra história.

Hoje, morando no Tibete, Guiodai vive segundo princípios de serenidade e equilíbrio; mas no fundo - bem no fundo -, guarda três grandes mágoas:

1) Foi recusado na guerrilha peruana pois apareceu por lá vestindo uma camiseta com estampa do Capitão Caverna;

2) Não consegue de jeito nenhum tocar pandeiro. Neguinho da Beija-Flor lhe disse para tocar surdo, coisa que o ofendeu profundamente;

3) No vídeo promocional do seriado, aparece bem no fim, com muito pouco destaque. Sim, Guiodai é vaidoso.

Resta a este espaço somente o gesto de lhe desejar boa sorte, caro Guiodai; e também desejar, neste momento de paz e bondade, que você encontre um caminho que lhe traga alegrias - na guerrilha, escola de samba, seriado japonês ou numa casinha de sapê.

 

por Thiago





Tecnosfera: Steampunk

22 04 2008

A Estrela da Morte de Star Wars imaginada no estilo steampunk pelo artista Elric Poulton. Clique nela para conferir outras imagens, como Darth Vader com ares de Frankenstein e Jabba como um rei do ópio

“Steampunk” é um subgênero do retrofuturismo para um universo imaginários nos quais se usa tecnologias da era vitoriana da Inglaterra. Exemplos associados a esse gênero são obras de Julio Verne como “20.000 Léguas Submarinas” e “Da Terra à Lua”. É como se a tecnologia e os costumes da Inglaterra durante esse período histórico houve perdurado até os dias de hoje.

O termo em si foi cunhado nos anos 80 com a ascensão de diversos escritores de ficção científica que preferiam conceber a tecnologia de seus mundos imaginários como dominada por máquinas à vapor e engrenagens de metal do que com usinas nucleares de energia e computadores digitais.

Apesar da popularidade de alguns ferrenhos defensores desse gênero, ele ainda permanece um nicho. A série “The League of Extraordinary Gentlemen” encontrou o seu lugar nos quadrinhos, mas o filme não conseguiu transpor esse interesse para a grande massa. No entanto, a sua influência em menor ou maior grau pode ser encontrada em diversos filmes, conforme escreve Bruno Accioly do steampunk.com.br:

Esta resignificação dos subgêneros da Ficção Científica se estende a várias medias, incluindo o Cinema e, quem aprecia a cultura SteamPunk, começa a identificar a estética do novo gênero - seja ela intencional ou não - em filmes como “Metropolis”, “1984″, “Brazil - o Filme”, “Delicatessen”, “Jovem Sherlock Holmes”, “De Volta para o Futuro”, “A Cidade das Crianças Perdidas”, “As Aventuras do Barão de Munchausen”, “Wild Wild West”, “Pacto dos Lobos”, “SteamBoy”, “O Cavaleiro sem Cabeça”, “Liga Extraordinária”, “Van Hensing”, “Hellboy”, “O Grande Truque”, “A Bússola Dourada” e tantos outros.

À esquerda um PC steampunk e à direita o belíssimo datamancer,o único laptop vitoriano de que se tem notícia (repare no detalhe da chave para ligar o aparelho e o mouse é, acreditem, uma pena). Clique na imagem para conferir a matéria da revista WIred com diversos outros objetos como óculos, guitarras e muito mais.

Mas por mais que exista uma tradição riquíssima da influência do steampunk na arte, o mais interessante é quando a paixão de alguns pelo steampunk deixa de ser mera ficção e se transforma em objetos customizados reais, como pode ser visto nos dois computadores acima. Se alguém estava em dúvida do que me dar de aniversário, eu aceito qualquer um dos dois. Recomendo novamente a matéria da Wired mencionada acima.

Um excelente exemplo é o site Steampunk Workshop, de Jake von Slatt, que reúne as criações de aficcionados pelo gênero. Existe até mesmo um carro steampunk em produção. O escultor Sillof modifica bonecos de brinquedo para o steampunk. Vale a pena conferir a sua versão Star Wars e uma coleção da Liga da Justiça também transmutada para o estilo.

por Solari

Fontes:

[haha.nu] [Wired] [io9] [steampunk] [obvious]





Desporto: Bob, Vanguarda do Skate

20 04 2008

Bob Burnquist é exemplo de atleta que vive redefinindo os limites do esporte. Skatista brasileiro campeão dos principais torneios da modalidade mundo afora - nos quais consagrou-se por sua criatividade e habilidade em andar no skate com base trocada-, Bob não se contenta em mostrar seu talento nas pistas verticais instaladas pela organização dos eventos que participa. Burnquist, de fato, ou escolhe ou constrói seu caminho. Organizei os vídeos a seguir sem preocupação cronológica, mas com a idéia de ilustrar a característica desse skatista de sempre incorporar novos desafios em sua trajetória. Vejam de 1 a 4, na seqüência:

 

2

3

4

Vou apelar aqui para a informalidade, pois foi nela que achei uma boa e sintética definição para a figura de Bob Burnquist. Vai Wikipedia, sem medo de ser feliz!: “Bob Burnquist: um grande e verdadeiro skatista, suas conquistas profissionais são inconparáveis. Um adorador das tecnologias, designer de rampas inovadoras, ótima influência aos jovens skatistas, ávido surfista e snowboarder, piloto privado, paraquedista, músico, fazendeiro orgânico e homem de família. Um constante conduíte de energias positivas e atitude.” Pelo que já vi e ouvi sobre Burnquist, é por aí mesmo. Aliás, vale a pena conferir o site do sujeito: www.bobburnquist.com.

 

por Thiago





Paulistano e paranóico: Manifesto de defesa dos direitos dos daltônicos

18 04 2008

Atingido fui por uma epifania entre as estações Ana Rosa e o Paraíso do metrô.

Nas profundezas negras da terra, balançando em pé dentro da grande lata, passei aponderar sobre o convidativo assento preferencial vago à minha frente. Como o canto de uma sereia, ele me chamava para sentar-me nele, me seduzindo com promessas de conforto e descanso. Porém por motivos que já discuti anteriormente, não ousava usufruir daquele delicioso plástico cinza.

Foi então que me dei conta: “Espere um minuto… ninguém está especificando QUE TIPO de deficiente tem direito ao assento! E eu sou daltônico!” Sentei-me na mesma hora com a consciência tranqüila de um infante que adormece no colo de sua progenitora.

É claro que o daltonismo não tem o mesmo glamour de outras deficiências físicas, mas é exatamente aí que reside a verdadeira crueldade do daltonismo, pois o daltônico sofre duplamente. Primeiro pela deficiência em si e depois por não ser levado a sério frente a sociedade como deficiente. Pois eu digo: Basta!

Ao longo de minha vida, precisei revelar diversas vezes minha condição de daltônico às pessoas (na maioria das vezes quando alguém dizia algo nos moldes de “passe a caneta verde”) e cada vez que expliquei minha condição a reação foi a mesma.

Estágio 1: Incredulidade: “Haha… daltônico… você tá brincando, né?”

Estágio 2: Incredulidade 2: “Você não está mesmo brincado?”

Estágio 3: Necessidade de comprovação empírica: Nesse estágio a pessoa começa apontar para diversos objetos em volta perguntando: “Que cor é essa? E essa? E essa? Mas que cor que você vê?”. Que cor que você vê… se eu visse a cor não seria daltônico, não é seu idiota?!

Estágio 4: “Que legal!”: Juro pra vocês que escuto muito isso. Minha resposta costuma ser: “Legal só se for pra você, seu paspalho!”

Oras, esse processo todo é o equivalente de alguém chegar para um paraplégico e dizer: “Que legal! Dá uma pirueta aí pra gente ver!” Demonstrando o tremendo descaso da sociedade com as milhares de pessoas que sofrem de daltonismo.

A verdade é que a sociedade possui uma dívida histórica com os daltônicos. Por tempo demais nossa condição foi ignorada. Você sabe o que é entrar em uma loja da Bennetton quando criança e ficar perdido no meio daquele monte de moletons coloridos. Eu sei! E, acredite em mim, isso traumatiza a pessoa!

Para colocar fim a isso criei aquela bola maciça com um X verde por cima no começo do post. Planejo fazer camisetas e cartazes com esse que é o símbolo máximo de nossa luta e se você é daltônico ou simpatizante, imprima esse símbolo e cole-o em seu carro ou janela para demonstrar o seu apoio.

Entre as propostas que devemos exigir estão cotas obrigatórias nas contratações das empresas e para o ingresso nas faculdades públicas. Devemos pedir também o fim das preconceituosas cores verde e vermelho nos faróis de trânsito. Vagas especiais para estacionar e direito às filas preferenciais nos bancos. Daltônicos do mundo: uni-vos!

Próxima vez que uma velhinha cheia de compras aparecer na minha frente no metrô querendo sentar eu vou erguer a cabeça com orgulho e dizer em um tom firme e confiante: “Sinto muito, minha senhora. Sou daltônico.”

por Solari





Cultura e Adjacências: Ras Revival

18 04 2008

De vez em quando isso acontece. O jukebox em minha cabeça, sempre ligado durante as caminhadas do dia-a-dia, toca um disquinho antigo - um revival que vem do fundo do baú. Segunda-feira passada foi assim; ônibus lotado, algumas canções do Midnight Oil rolando… então houve a explosão. “O carro quebrou!”, disse o sujeito. Desci, por sorte já perto do destino, e então veio o hit “Ei, ei… estamos aí, pro que der e vieeer”.

Momento de reflexão: o som era do Cidade Negra, sem dúvida, mas qual o nome do vocalista mesmo? O coro mais jovem responderia “Tony Garrido, pô!”. Mas não; trata-se de Ras Bernardo, fundador da banda nos idos de 1987 - e uma das referências do reggae brasileiro. Garrido veio depois.

E por onde anda Ras, resta a pergunta? Continua produzindo. Inclusive tem um álbum lançado no ano passado, “Jah e Luz”, com algumas de suas canções disponibilizadas no MySpace (www.myspace.com/rasbernardo). Destaque para a faixa “Só pra te provar”, que tem a crueza sempre marcante nas boas canções do gênero.

 

por Thiago





Tecnosfera: Eles estão observando. E por “eles” eu quero dizer “nós”

18 04 2008

clique na imagem para conferir o streaming do Luiz

Um dos objetivos da coluna Tecnosfera é não apenas falar sobre sites interessantes ou avanços tecnológicos em si, mas mostrar como as avançadas tecnologias de telecomunicação podem afetar vidas. Ok, clichês acerca do Admirável Mundo Novo à parte, vamos aos fatos.

Trago dois exemplos de um conceito fascinante: o de você poder seguir uma pessoa em tempo real em qualquer lugar do mundo.

Um caso brasileiro disso é o caminhoneiro brasileiro que trabalha nos Estados Unidos, o Luiz. Ele vai andando pelo país do tio Sam com a webcam ligada, mostrando em tempo real o caminho que ele percorre.

Mais interessante que isso, porém, é que você pode bater um papo com ele pelo MSN enquanto vê o caminho dele. Ele não digita de volta, é claro, mas ele responde falando com a câmera, de modo que é possível ter uma conversa bem interessante com ele. E pelo pouco que conversei com o Luiz já vi que ele é um daqueles caminhoneiros que aprecia bastante uma boa prosa.

Mas não acredite na minha palavra, clique na imagem acima e pegue o MSN pra trocar uma idéia.

clique na imagem para ver o que Hasan está aprontando nesse exato momento

Um exemplo mais radical é o do artista Hasan Elahi. Um artista que viaja demais, ele foi preso por engano pelo FBI em 2002 (ele viaja demais e acharam que ele era um terrorista) e passou a ligar para o FBI antes de cada viagem para que estivessem avisados e não suspeitassem de sua movimentação.

Mas depois de ligar diversas vezes, Hasan decidiu ir mais longe e passou a colocar a sua vida inteira online, na esperança de que dando toda informação sobre ele as autoridades não vão precisar prendê-lo para novas averiguações.

Agora, quando eu digo toda, eu digo TODA a vida on-line. Hasan posta diariamente centenas de fotos de seu dia, desde imagens de diversos ângulos do seu café da manhã até idas ao banheiro e fotos de todos os recibos de tudo o que ele compra.

Mais que isso, através de um localizador em seu tornozelo ele mostra a todo o momento a sua posição no globo, na idéia de que se eles vão ficar observando ele, que vejam tudo logo de uma vez. Ah, se todos os suspeitos tivessem toda essa consideração de facilitar tanto assim a vida do governo americano…

Ele garante que seu o log do seu servidor acusa visitas do Pentágono, O Departamento de Defesa dos EUA e o Gabinete Executivo da Casa Branca. Será que o Bush em pessoa entra de vez em quando para verificar se o Hasan está se comportando?

por Solari

Fontes:

[Folha de Seu Paulo]

[Futurismic]