
[clique na imagem para matéria do G1 sobre o ocorrido]
Testemunhei uma cena um tanto inusitada. Voltava eu de minha aula de mandarim, quando percebo um trânsito na Avenida Paulista de intensidade incomum para um sábado à tarde. Pensei que poderia ser outro protesto dos “sem-grana”, termo genérico que utilizo para boa parte das manifestações da cidade. Porque, convenhamos, é no final das contas isso que pede 90% dos protestos que vi em São Paulo, sejam de professores, bancários, motoristas ou enfermeiros. Nada como mexer no bolso para mobilizar o senso de cidadania nas pessoas.
Alguém pede ao motorista do ônibus que abra a porta e aproveito para descer também, disposto a andar alguns quarteirões a mais ao invés de ficar sentado fritando ao sol. Em pouco tempo vejo os tais sem-grana se movendo de bicicleta em minha direção. “Estranho…”, penso eu. “Parece que não é só grana que essa gente não tem…”
Eram centenas de ciclistas semi-nus, de ambos os sexos. Muitos com os corpos pintados e um ou outro completamente pelado. Em volta do grupo, corriam algumas dezenas de membros da imprensa, de fotógrafos a cinegrafistas, e um sem-número de curiosos observando com os braços cruzados.
De repente acontece um reboliço na minha frente. Policiais começam a prender um homem completamente nu e os demais ciclistas começam a empurrar os policiais que jogam um spray na multidão (spray de pimenta, pelo que vi depois em uma reportagem. clique na imagem para ler e conferir o vídeo). Pelo menos dois outros homens e uma mulher sem roupa conseguiram fugir para o meio dos manifestantes, evadindo os policiais.
Descobri depois que o protesto faz parte do World Naked Bike Ride, uma manifestação mundial para incentivar a utilização das magrelas nas cidades e diminuição da cultura do automóvel. Nada contra isso, mas gostaria de fazer apenas duas ressalvas sobre o protesto.
Chame-me de conservador, mas acho que não jamais conseguiria ficar confortável andando nu de bicicleta. Sei lá, aquele monte de aros e correias girando perto de minhas partes privadas é o bastante para dar um gelo na minha espinha agora, só de imaginar. E se cair então? Imagine o que deve ser se esfolar pelado pelo asfalto. Botem uma tanguinha pelo menos, pessoal. Não custa nada.
E chamem-me de fútil se quiserem, mas, gente, o paulistano médio não é exatamente um Adônis ou uma Afrodite quando despido. Somos em nossa maioria uma raça noturna, com o rosto permanentemente cansado devido ao excesso de trabalho e o corpo deformado por uma dieta com café demais e frutas de menos. A roupa é um adereço válido que deflete a atenção de nossa inadequação física para nossos dotes intelectuais.
Admito que eu sou bem branquelo (sou daquelas pessoas que vira e mexe é abordado com alguém que insiste em colocar o antebraço ao lado do meu e exclamar: “Nossa! Você consegue ser mais branco que eu!“), mas, pelos Céus, tinha pessoas ali que eram brancas ao ponto de ofuscar a vista! Eu não acredito que estou falando isso, mas essa gente devia sair mais de casa e ver o Sol de vez em quando.
Enfim, rompantes de reclamação à parte, acho que o protesto foi válido, e apóio sim proposta. Até tive a idéia de organizar um World Naked Book Reading, onde tomaremos a cidade com centenas de leitores pelados para difundir a importância da literatura. Alguém aí se habilita a participar do protesto?
por Solari
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