Paulistano e paranóico: A dança robô

14 07 2008

Em um relato anterior, descrevi o meu colega de redação Alexandre como alguém que parece viver exclusivamente para a satisfação de seus desejos primários de futebol, sexo e bebida. E, em retrospectiva, creio que a descrição foi injusta para com ele. Ele é tudo isso, mas ele dança também.

Mil filósofos poderiam tentar por mil anos me explicar, mas mesmo assim eu não compreenderia o que é que leva alguém a desatar a dançar no meio de uma redação de jornal sem nenhum motivo em particular. Pois é isso o que acontece. Juro pra vocês

Meras palavras não podem fazer juz à experiência que é assistir à dança robô de Alexandre. A sua incidência não pode ser prevista por ninguém além do próprio dançarino. Tudo está calmo, você olha para o lado e BAM! o Alexandre está dançando.

Quando a famosa dança ocorre, a redação inteira é paralizada com um misto de risos e incredulidade. A movimentação em si consiste em uma bizarra mistura de break dos anos 80 com um moonwalk de um Michael Jackon bêbado que gira de costas em torno do mesmo eixo. A melhor imagem que eu posso conjurar para descrever o fenômeno é a de um cachorro que gira de costas em torno do próprio rabo. Como se tentasse atirar o traseiro para dentro do rosto ao invés do contrário.

Adicione a isso o lábio mordido de quem está certo de bailar como um Travolta e um gingado todo especial, que apenas o próprio Alexandre sabe replicar e terás um vislumbre de como é um dia mediano naquela redação.





Paulistano e paranóico: Visita ao setor de publicidade

7 07 2008

Ditado pessoal 436: “Se a publicidade é a alma do negócio, o publicitário venderia a sua alma por um negócio”.

No universo de um de meus muitos livros não editados a publicidade é banida, sendo considerada uma magia mais terrível do que a necromancia. Bastaria você soltar um slogan que uma horda de camponeses munidos de tochas e tridentes o cercasse e o arrastasse para uma fogueira. Nesse mundo, a publicidade era praticada às escondidas em grutas isoladas ou catacumbas esquecidas. Enfim. Sonhar não custa nada.

Evito ao máximo o contato com publicitários, mas não pude evitar a interação com essa curiosa etnia uma vez que a impressora de meu andar quebrou e eu precisei descer até as profundezas do sétimo andar. Antro vil dos publicitários.

Antes de tudo; os termos. Eu até posso entender um ‘agregar valor’ ou ‘plugado’ aqui e acolá, mas para que raios ficar vomitando termos em inglês no meio da conversa? “Não temos data para isso”. “Qual é o target do paper?”. “Esse não é o meu job“. “Que horas é a meeting?”. “Prontos pro brainstorming?” E tome gadget, web, creative, busy, trash, fog. Eu sei o que você está pensando; que eu estou forçando a barra. Que os seres humanos ou os publicitários não falam assim na vida real.

Sinto destroçar a sua visão de mundo, mas, sim, eles falam assim. Basta certo tempo de convívio que para que o publicitês venha à tona. A grande ironia é que uma conversa um pouco mais aprofundada revela que o conhecimento de inglês de boa parte deles não passa do Hello, how are you? Como regra geral, pode-se afirmar que quanto mais ele utiliza os publicitês, menos inglês ele sabe na realidade.

Porém confesso que possuo alguns conhecidos que tolero com razoável facilidade que são publicitários. Eu tento, como exercício pessoal de auto-aprimoramento, enxergar sempre o lado bom das pessoas.

Das pessoas e dos publicitários também.





Paulistano e paranóico: Maldito seja o Anderson

28 06 2008

[CC:Lukasz Maciak]

Você deve conhecer alguém como o Anderson. Ele é um “Cara do Computador”, aqueles sujeitos que entendem de computação o bastante para serem tolerados no setor de TI das empresas e reforçam o caixa indo na casa de velhinhas instalar a impressora ou dando aulas duas vezes por semana, ensinando-as a responder os e-mails dos netinhos e a fazer um perfil no Orkut.

Só que o Anderson é de uma subespécie dos Caras de Computador. Ele é o Cara de Computador Ativista do Software Livre. Essa curiosa raça insiste em instalar o Linux em um computador que veio com o Windows Vista, reclama que o Photoshop é uma porcaria, não chega perto do Media Player, só usa o BrOffice e frequenta fóruns de discussão de programadores do Linux. MSN? Nem pensar!

A mochila do Anderson é o que você esperaria de um paramédico caso ele atendesse computadores. Temos uma dúzia de DVDs em um case, distribuídos como os bisturis de um cirurgião. Um antivírus, windows Vista e XP (”para os não-convertidos que insistem em sofrer”), pen drives com programas de diagnóstico, um laptop para análises, programas de antivírus e toda uma penca de softwares que seus clientes costumam pedir.

Fui falar com ele. Tinha a tão comum reclamação de que o meu computador estava lento de um tempo para cá. Me senti um marido indo reclamar com o terapeuta que sua esposa não estava mais tão fogosa quanto antes.

“Que plataforma você tem na sua máquina”, ele perguntou, como um sábio medieval que pondera a questão trazida por um humilde camponês. “Windows XP”, respondi. “Aah… mas esse que é o problema. Você precisa ficar rodando um monte de antivírus e spyware de fundo e ele fica devagar mesmo. Sabe qual é o nome do melhor antivírus que existe?” Respondi que não e ele prosseguiu falando com o tom didático de um professor que ensina as verdades da vida a uma criança. “Linux!”, respondeu em um tom oratório, seu dedo em riste.

Pois ele me deu um CD do Ubuntu (para os ‘não iniciados’, as diferentes versões brasileiras do linux possuem nomes indígenas, para potencialidar a sensação de que estamos protegendo a soberania nacional frente as mega-corporações estrangeiras). Coloquei o dito cujo no meu computador e reiniciei. “Você quer instalar o Ubuntu?” perguntou a máquina, em uma interface que me lembrou os velhos dia de DOS.

E aí ele instalou o Ubuntu… DEPOIS DE APAGAR TODO O MALDITO CONTEÚDO DO MEU COMPUTADOR. Entenda a magnitude da perda, leitor. Sou um homem de idéias. Prezo mais as coisas que escrevo e leio do que o lugar no qual moro, as roupas que visto e até mais do que minhas memórias. Por sinal, ao revisitar textos antigos, lembro da minha vida na época na qual eles foram escritos mais do que ao observar fotografias. O Ubuntu apagou um naco da minha alma.

Liguei enfurecido ao Anderson e disse que ele não tinha me falado que eu precisava fazer uma cópia de tudo. “Ué, mas todo mundo sabe que precisa, você não sabia?”. Claro que sabia, Anderson, apaguei mesmo assim só por diversão.

Agora o meu computador está ali parado enquanto consulto outros Caras do Computador que saibam de uma maneira de recuperrar os meus bebês. Se não der certo, vou desembolsar uma nota para uma empresa especializada e em último caso, vou enterrar a máquina na esperança que ela seja descoberta por gerações futuras que possuam a tecnologia para recuperar meus textos e quem sabe lê-los mais uma vez. Sniff.

por Solari





Paulistano e paranóico: O arraial de Jesus

23 06 2008

[CC/Perla]

O sábado à noite veio até mim repleto de promessas de bons momentos em meio aos clássicos da literatura. Minha mãe saiu para um encontro com suas amigas senhouras garantindo sossego madrugada adentro.

Observei atento minha estante. Ainda decidia se iria me entregar a contos machadianos, Dickens ou Milton, quando meus ouvidos foram violentados pela mais vil e estridente música pseudo-caipira, daquelas típicas da cidade grande no mês de junho.

Coloquei a cabeça para fora da janela, tentando encontrar a fonte daquela verdadeira afronta à paz e tranqüilidade. Na avenida à frente de meu apartamento, a menos de um quarteirão, discerni a origem da bagunça. Em uma faixa bem grande em frente à entrada do templo evangélico lia-se: “Bem Vindos ao Arraial de Jesus!”. É preciso dar o braço a torcer ao universo e seu senso de humor.

O templo evangélico nunca havia me incomodado até aquele dia. Apesar da proximidade e generosidade do som, os cultos ocorrem durante os dias de semana, em momentos nos quais me encontro fora de casa a trabalho. A música junina era brega e excessiva, mas em pouco tempo comecei a me acostumar com ela e consegui ler sem maiores dificuldades. Acreditava mesmo que nem tudo estava perdido, que talvez o universo tenha lá a sua piedade para pobre solitários cuja principal fonte de divertimento na semana é ler entre goles de um vinho tinto de qualidade aceitável.

E então começou a quadrilha. Mas não qualquer quadrilha, não, era uma tal “quadrilha do senhor”. Entre um ou outro “olha a cobra”, ouvía-se em seguida “aleluia senhor!”. Como a maldade é amiga da ironia, o arraial durou até o raiar do Sol. Juro pra vocês.





Paulistano e paranóico: World Naked Bike Ride

16 06 2008

[clique na imagem para matéria do G1 sobre o ocorrido]

Testemunhei uma cena um tanto inusitada. Voltava eu de minha aula de mandarim, quando percebo um trânsito na Avenida Paulista de intensidade incomum para um sábado à tarde. Pensei que poderia ser outro protesto dos “sem-grana”, termo genérico que utilizo para boa parte das manifestações da cidade. Porque, convenhamos, é no final das contas isso que pede 90% dos protestos que vi em São Paulo, sejam de professores, bancários, motoristas ou enfermeiros. Nada como mexer no bolso para mobilizar o senso de cidadania nas pessoas.

Alguém pede ao motorista do ônibus que abra a porta e aproveito para descer também, disposto a andar alguns quarteirões a mais ao invés de ficar sentado fritando ao sol. Em pouco tempo vejo os tais sem-grana se movendo de bicicleta em minha direção. “Estranho…”, penso eu. “Parece que não é só grana que essa gente não tem…”

Eram centenas de ciclistas semi-nus, de ambos os sexos. Muitos com os corpos pintados e um ou outro completamente pelado. Em volta do grupo, corriam algumas dezenas de membros da imprensa, de fotógrafos a cinegrafistas, e um sem-número de curiosos observando com os braços cruzados.

De repente acontece um reboliço na minha frente. Policiais começam a prender um homem completamente nu e os demais ciclistas começam a empurrar os policiais que jogam um spray na multidão (spray de pimenta, pelo que vi depois em uma reportagem. clique na imagem para ler e conferir o vídeo). Pelo menos dois outros homens e uma mulher sem roupa conseguiram fugir para o meio dos manifestantes, evadindo os policiais.

Descobri depois que o protesto faz parte do World Naked Bike Ride, uma manifestação mundial para incentivar a utilização das magrelas nas cidades e diminuição da cultura do automóvel. Nada contra isso, mas gostaria de fazer apenas duas ressalvas sobre o protesto.

Chame-me de conservador, mas acho que não jamais conseguiria ficar confortável andando nu de bicicleta. Sei lá, aquele monte de aros e correias girando perto de minhas partes privadas é o bastante para dar um gelo na minha espinha agora, só de imaginar. E se cair então? Imagine o que deve ser se esfolar pelado pelo asfalto. Botem uma tanguinha pelo menos, pessoal. Não custa nada.

E chamem-me de fútil se quiserem, mas, gente, o paulistano médio não é exatamente um Adônis ou uma Afrodite quando despido. Somos em nossa maioria uma raça noturna, com o rosto permanentemente cansado devido ao excesso de trabalho e o corpo deformado por uma dieta com café demais e frutas de menos. A roupa é um adereço válido que deflete a atenção de nossa inadequação física para nossos dotes intelectuais.

Admito que eu sou bem branquelo (sou daquelas pessoas que vira e mexe é abordado com alguém que insiste em colocar o antebraço ao lado do meu e exclamar: “Nossa! Você consegue ser mais branco que eu!“), mas, pelos Céus, tinha pessoas ali que eram brancas ao ponto de ofuscar a vista! Eu não acredito que estou falando isso, mas essa gente devia sair mais de casa e ver o Sol de vez em quando.

Enfim, rompantes de reclamação à parte, acho que o protesto foi válido, e apóio sim proposta. Até tive a idéia de organizar um World Naked Book Reading, onde tomaremos a cidade com centenas de leitores pelados para difundir a importância da literatura. Alguém aí se habilita a participar do protesto?

por Solari





Paulistano e paranóico: Um carnívoro diferente

8 06 2008

[CC/Stuart Holmes]

A minha recente reflexão acerca da falta da personalidade de alguns vegetarianos criou uma certa polêmica entre os frequentadores de meu diminuto círculo social. Alguns me consideraram moralista e desrespeitoso em minhas considerações (ainda vamos resolver quem está correto no sinuca, Alexandre, que salvo melhor juízo é o único hippie do planeta que anda com camiseta do Iron Maiden). No entanto, outros demonstraram grande apoio e inseriram ainda outras críticas bem, digamos, incisivas com relação a vegetarianos que insistem em comer “carne” e “leite” de soja como se “soja” fosse a raça da vaca.

Em uma dessas noites, em uma de minhas breves escapadelas para fora de minha caverna, me encontrei recentemente em um bar com conhecidos da redação e o assunto veio à tona. Alguns carnívoros fanáticos citaram dados “científicos” sobre a importância da carne na dieta. Quase sempre que alguém joga a palavra “científico” em um argumento, pode crer que não é. Crianças precisariam de carne para “dar firmeza aos ossos”, outro falou que vegetarianos precisavam dormir doze horas por dia ou que se tornavam fracos e afeminados. Tudo muito científico, é claro.

Outro colega, mais empirista, citou estatísticas sobre a quantidade de milho necessária para alimentar um frango, o que inviabilizava a sua produção do ponto de vista lógico. Duas vegetarianas estavam presentes, uma que citava razões de saúde para não consumir carne e outra que falava que afirmou ter pena dos animais. Alguém perguntou se ela não tinha pena da salada à sua frente, ela disse que salada não tinha sentimentos, o outro replicou “como você sabe?” e assim por diante. Uma noite agradável.

Até que o nosso colega empirista citou a ideologia particular de um conhecido. Segundo a filosofia desse fulano, o problema de ingerir a carne é a forma como ela é, digamos, “coletada”. O leão come o cervo porque ele é mais forte, nada mais lógico, porém o ser humano não é mais forte do que grande parte dos animais que consome, portanto, tal prática é injusta. E como é que o nosso filósofo de darwinismo de botequim se livra desse paradoxo alimentar? Que bom que você perguntou.

“Ele só come animais que venceria na porrada”, continuou o meu colega. Foi como se o tempo tivesse parado subitamente. Meu cérebro varreu desesperada os arquivos internos de minha memória em busca de qualquer pista que me ajudasse a compreender o funcionamento da mente de alguém que imagina esse tipo de filosofia para sua vida. Em vão. Vivesse eu mil anos, por mil anos não entraria na minha cabeça como alguém pode basear escolhas alimentares sob o critério de que “venceria na porrada”.

Segundo a ideologia do fulano, peixes e frangos são território limpo. Bastaria torcer o pescoço e o serviço estava feito. Carne vermelha está fora de questão para ele, porém ele acredita que alguns seres humanos mais fortes poderiam comer. “E porcos?” eu perguntei. Meu amigo respondeu como se ele mesmo tivesse feito uma pergunta semelhante ao se deparar com a curiosa filosofia de seu colega. “Ele falou que depende do tamanho do porco. Leitão sim, javali não, feijoada ele tenta estimar o tamanho do bicho pelo pé”. Ah… sim. Isso sim faz bastante sentido.

Não possuo uma religião fixa (nem mesmo o ateísmo, que é um tipo de religião), mas em horas como essa sou arrebatado por uma forte certeza de que se Deus existe, ele estava de sacanagem quando criou isso daqui. E agora ri até chorar.





Paulistano e paranóico: Ode ao ódio

3 06 2008

[Foto via: Sedentário e Hiperativo]

Já quando nasci era um velho rabugento, não há maneira mais simples do que essa para me descrever. Segundo relatos de meus progenitores, a primeira palavra que pronunciei foi “numqué”. Só fui emitir “mãmã” alguns meses depois e mesmo assim foi para dar mais ênfase ao meu numqué: “mãmã, numqué!!!”

Possuía, já naquela época, profunda aversão às verduras, mesmo que hoje ela seja uma aversão num patamar mais ideológico com relação às pessoas que comem verduras e as que não comem também. Gostava de coxinhas, isso sim. Meus pais tiveram a idéia de inserir homeopaticamente espinafre na minha coxinha, para que eu não sentisse o amargo sabor do vegetal. Um dia pensei comigo: “raios, essa coxinha está uma porcaria!” Chorei até que os ouvidos de meus pais tratassem meus berros como um pano de fundo inerente à existência.

Ainda no ramo da alimentação; por alguns anos de minha infância a única refeição que eu aceitava sem abrir um berreiro era macarrão à bolonhesa com danete de sobremesa. Lembro de um dia na praia que pedi lasanha de café-da-manhã e meus pais me explicaram que não se come esse tipo de coisa pela manhã. Infernizei os dois com uma choradeira incessante pelos próximos dois dias.

Equação da minha infância: {4xirmãs + eu(bochechudo)} / (mãe + pai) = eu ganhei. As empreitadas das quais eu me safei com um olhar entristecido às minhas irmãs… As transformava em fiéis soldadas que lutavam em meu benefício contra meus pais. “Deixa o garoto viver a vida”, “quanto custa esse brinquedo que ele quer?”, “ele está indo mal na escola porque estuda demais”, “vocês ficam muito em cima do coitado”. Não só eu apitava nos ouvidos dos meus pais como terceirizava as irmãs para gritarem também por mim. Eu fazia aquele garoto Damien da Profecia parecer um amador.

E aí veio a adolescência. E a incapacidade de minhas investidas ao sexo oposto serviu apenas para aprofundar ainda mais o ódio com relação a tudo o que não era eu. Porém, por motivos que são misteriosos até mesmo para mim, achei uma ou outra doida o bastante para encarar a minha personalidade que classifico de “mal-humor construtivo”. Sou do tipo que odeia, o-de-i-a, quando o amigo dá solução para um problema. Raios, eu não quero resolver o problema. Eu quero é ficar reclamando!

Tão precoce fui que já na adolescência eu tive minha crise de meia idade. No momento, batendo nos trinta, já estou entrando na terceira idade e pensando na aposentadoria. Meu sonho para o final da vida? Ser o velho esquisitão do prédio, aquele que as crianças tem medo de chegar perto. O “seu Solari do 42″. Posso já ver uma existência tranqüila fazendo caretas no elevador para as crianças enquanto as mães não estão olhando. Ah… isso sim é que é viver.

por Solari





Paulistano e paranóico: Eu não sou ladrão!

24 05 2008

[Foto: CC//Sampaist]

Meu programa favorito de final de semana: andar dois quarteirões até a Livraria Cultura, pegar um bom livro na prateleira, ler no sofá, almoçar, pegar o mesmo bom livro na prateleira, ir embora só quando ele estiver acabado ou quando fecharem o estabelecimento. Se me deixassem levar vinho lá pra dentro eu não saía nem arrastado.

Se você lê essa coluna há algum tempo e seu cérebro ainda não ficou completamente obtuso com o excesso de lixo transmitido na televisão, já deve ter percebido que eu advogo uma relação um tanto, digamos, “próxima” com os livros. Gosto de carregar comigo os meus próprios volumes, mesmo que não os leia, como se eles fossem dotados de algum tipo de poder totêmico ou xamânico. A verdade é que me sinto nu quando ando sem os meus livros. Como se tivesse deixado um naco de mim em casa. Posso esquecer de sair vestindo cueca (já aconteceu), mas não esqueço do meu Quixote (atualmente na terceira releitura).

Até mesmo quando vou à Cultura para ler os livros de lá, não me abstenho de levar os meus volumes. Meus bebês.

E aí que mora o problema. Com aqueles malditos sensores nas portas das livrarias. Aquelas pragas tecnológicas deviam apitar quando um livro está sendo roubado, mas qual não é a minha sorte que eles resolvem apitar toda vez que eu passo!?

Pior, tem vezes que eles não apitam na minha entrada, MAS SÓ QUANDO EU SAIO! Não consigo pensar em nenhuma resposta coerente além de que os tais sensores devem ser dotados algum tipo de consciência e com um senso de humor bem negro também.

Toda vez que eu vou embora é aquele sofrimento. Olho para os sensores. Os sensores olham para mim. Tal qual a esfinge observando Édipo. “Decifra-me, ou eu apito”, parece dizer. Eu tento em vão me comunicar mentalmente com a máquina. “Caro sensor”, penso eu, “Por favor. Se sua mente fria de metal pode conceber o significado da palavra ‘caridade’ peço que me deixe passar sem ser importunado”. O sensor me observa inerte. Arrisco-me e…

Blé blé blé blé blé.

É lógico que os funcionários já estão acostumados que a máquina do capeta apite vez ou outra, que não significa que o cliente está roubando. Mas fica a dúvida. Fica a indelével dúvida pairando no ar. Os demais clientes também me olham com aquela cara de “onde já se viu rapaz tão novo ficar roubando livros”. Eu sinto em seus olhares. Todos eles. Me julgando. Me medindo.

O pior é que essa situação é igual a cair em areia movediça, quanto mais você se debate, mais rapidamente afunda. É como um louco que berra acerca de sua sanidade enquanto é arrastado pelos enfermeiros. Quanto mais ele grita, mais pinta de maluco o sujeito tem.

Já tentei abrir a minha mala e mostrar a todos em volta, balançar nas mão os recibos que provam que os livros foram adquiridos legitimamente (sim, eu passei a andar também com o recibo dos meus livros), mas isso só piora a situação. Tudo o que me resta e baixar a cabeça e seguir em frente, sentindo os olhares julgadores perfurando minha alma.





Paulistano e paranóico: Quer ser vegetariano? Seja com vontade!

17 05 2008

[Foto:CC//Carlos Jorge]

Uma hora da tarde. O ronco do estômago me lembra das necessidades alimentícias de meu corpo. Olho pela redação e vejo, com a precisão de um relógio, a fome nos olhos de meus colegas até que alguém lança a rotineira pergunta: “E aí, onde vamos comer hoje?”

Os diversos restaurantes nas proximidades da editora são uma necessidade para aqueles que, como eu, possuem uma mãe com mais boa vontade do que aptidão culinária para preparar uma marmita. Por isso eu saio junto do pessoal na hora do almoço e tolero as suas companhias um pouco mais em nome de uma melhor convivência cotidiana. Não quero que ninguém aqui me acuse de ser antipático.

É interessante notar que no microcosmo da redação os restaurantes são referidos não por seu nome propriamente, mas por apelidos “carinhosos” recebidos ao longo dos anos.

Assim temos o Self, um dos primeiros self-services a ser descoberto. Em pouco tempo desbravaram o Pobrão, bandejão por quilo de preço mais acessível, o Ricão, “onde só vai diretoria” nas palavras de um rapaz do departamento de arte, o Super-Pobrão, que é mais barato ainda, o Novão que só foi descoberto depois e o temido Albergue, estabelecimento no qual você paga seis reais e come o quanto quiser de uma comida de qualidade que vai do ruim ao letal. O nome “Albergue” se refere a uma lenda interna da redação de que o restaurante mantém os preços baixos sacrificando clientes desavisados que entram para visitar a cozinha e servindo os pedaços na feijoada. Depois de bater o olho na tal fejuca, na única vez que tive coragem de botar os pés lá dentro, não duvido de que isso seja de fato verdade. Juro pra vocês.

E por último nós temos o Vegeta. Trata-se de um recanto vegetariano freqüentado por médicos do hospital próximo e por gente com pinta de hippie, artista ou instrutor de yoga. E, no nosso caso, por jornalistas que querem de vez em quando dar uma variada depois de entupir as vias arteriais todo santo dia com animais mortos e gordurentos.

Não tenho nada contra os vegetarianos, ao menos não mais do que em relação ao restante da humanidade, mas, Deus do céu, se for pra ser vegetariano, seja com vontade!

Que história é essa de hambúrguer de soja? Picanha de glúten? Bolo de CARNE de soja? Imagino que esse bando de hiponga deve fechar os olhos depois de colocar um pedaço de lingüíça de soja na boca e tentar abstrair que vivem em um mundo encantado e fantasioso onde aquilo é uma vaca e não tem gosto de isopor. Até bacon de soja pra colocar na salada os infelizes criaram.

Quer comer carne, meu amigo? Então crie vergonha na cara, faça o favor de descer do seu palanque de busca espiritual aqui pra baixo onde vivem os mortais e dirija-se até uma churrascaria! Porque esse tipo de auto-enganação só vai te prender no ciclo de reencarnação por mais tempo. Ou longe do Nirvana. Ou seja lá que conceito oriental da moda você resolver acolher pra tentar dar sentido à sua vida. Posso até compreender os que comem soja no lugar de carne por motivos de saúde. Só que, nesse caso, chamemos o negócio de proteína de soja e não de strogonoff.

Mas pensando melhor, também encontro certa dificuldade em respeitar quem escolhe se alimentar de livre e espontânea vontade com uma comida que parece mais apropriada a coelhos e passarinhos. Nas palavras do meu bom amigo Thiago; “De que vale essa merda de vida se a gente não tem pelo menos um fator de risco?”

Diz aí se não é verdade.





Paulistano e paranóico: Reunião familiar

11 05 2008

O dia das mães me obrigou a me desentocar de meu pacato refúgio de leitura para enfrentar a muito contragosto mais uma reunião familiar.

É preciso que o leitor compreenda que não há muito respeito reservado para um pretenso intelectual de 30 anos com pretensões literárias que vive com a mãe em uma família de fazendeiros, industriais e empreendedores bem-sucedidos. E o sentimento é mútuo.

Mas, enfim, desenvolvemos uma regra não dita que manteve nossos encontros semestrais em relativa harmonia. Eles não me perguntam “conseguiu achar um emprego de verdade ou ainda está no jornalismo” ou “você está namorando?” e eu evito tornar aparente a absoluta falta de cultura da trupe ao fazer perguntas sobre literatura, cinema, teatro ou de qualquer assunto que precise que necessite opinião e cuja resposta não se encontre na revista Veja da última semana. Por mais incrível que pareça, eu posso ser ácido e sarcástico quando quero.

Quatro grupos principais se formam naturalmente em rodas de conversa durante o aperitivo: As mulheres, os homens, as crianças e eu.

As mulheres conversam sobre moda, culinária e reforma da casa. E sobre cabelo. Deus do Céu, como acham tanto assunto sobre cabelo?

No front masculino era um tal de preço de gado pra cá, especificação de carro pra lá, opiniões futebolísticas, reclamações políticas, lembranças saudosas dos tempos de ditadura.

As crianças corriam de um lado para o outro dando finas em vasos que o arquiteto deve ter escolhido para embelezar o apartamento. E barulho. Faziam bastante disso também.

O quarto grupo se sentou e contou os segundos até o final daquele ato cerimonial com pessoas que não tem nada em comum além de algumas semelhanças em sua cadeia de DNA. Sim, é uma caprichosa brincadeira do universo te jogar no meio das pessoas com as quais você mais divide material genético e ao mesmo tempo esfregar na sua cara as indiscutíveis diferenças.

Pelo menos a comida estava boa.

por Solari