Paulistano e Paranóico: Embate com a máquina de café
29 03 2008

Eu posso suportar muita coisa nessa vida. Eu posso trabalhar além do tempo estipulado, receber um salário simbólico, ficar com fome, sono, sede. Mas, rapaz, não tire de mim o meu café.
Não tire de mim o meu café.
Nada instiga em mim instintos primários de fúria como a falta de cafeína correndo por minhas veias. O café é a bebida do pensamento, a bebida do trabalho. É a senhora escura da modernidade que rege tanto os poetas quanto os burocratas.
Na verdade, vi certa vez um documentário interessante que tratava da transferência da cerveja para o café como bebida da preferência no final da Europa medieval. Para um modo de produção industrializado, o objetivo deixou de ser o torpor controlador de massas da cerveja para uma bebida mais business como o café. Mas, enfim, isso é outro assunto.
O fato é que enquanto não desenvolvem cafeína intravenosa (está lançada aqui a idéia para os cientistas), o café ainda precisa ser ingerido oralmente. Cheirar carreiras de pó de café não dá certo. Acredite em mim.
E é pra isso que eu uso aquela máquina do capeta lá na faculdade. Eu já me estranhei com ela outras vezes. Vez ou outra quando eu colocava as moedinhas ela “esquecia” de contar o valor de algumas delas. Eu colocava 60 centavos e ficava brilhando um 50 no visor como que caçoando de mim. A gente percebe que um país está inundado até o pescoço em corrupção quando até a máquina do café exige a parte dela pra facilitar a liberação de uma coisa que é sua por direito. Eu, como bom cidadão mediado complacente, pagava os 10 centavos a mais. Mas dessa vez ela foi longe demais.
Entenda, leitor, como todo funcionário corrupto, a máquina de café se tornou mais gananciosa com o tempo. Os 10 centavos aqui e ali não satisfaziam mais a fome da besta e ela me fez pagar 4,60 reais por um café curto.
Tremi naquele dia, quando percebi que não tinha mais moedas e apenas uma nota de 5 reais na carteira. Com a nota em mãos, eu hesitava em colocar o dinheiro na entrada que lambia os beijos em antecipação pelo dinheiro. Olhei bem para a frente da máquina em busca de informações sobre se algum valor de notas não era aceito, perguntei para transeuntes se eles achavam que a máquina ia engolir. Mas o meu vício cego pela ambrósia negra falou mais alto que o meu apego ao dinheiro e eu inseri a nota com a nítida sensação de que havia cometido um grande erro. E não deu outra.
A filha da puta me deu aquele café meia-boca de sempre e 40 centavos de troco.
Vi depois nas instruções, que estavam em um quadrinho camuflado, que a máquina aceita apenas notas de 1 real e de 10. Eu gostaria muito de conhecer e apertar as mãos do gênio do mal que concebeu esse tipo de armadilha para o consumidor. Um layout do tipo “letrinhas miúdas no final do contrato” que permite ao mesmo tempo afirmar que avisou, e esconder as instruções do comprador desavisado. Notas de 1 e 10 e não de 5? Não me entra na cabeça a lógica por trás disso!
Depois de bater em frustração na máquina e chafurdar os dedos no vão do troco (pelo menos alguém esqueceu 10 centavos lá, lucro pra mim), eu aceitei minha derrota frente o monolito e voltei cabisbaixo para a aula. E o café estava ainda pior que o normal.
por Solari
Comentários : 2 Comentários »
Tags : Café, máquina de café
Categorias : Guilherme Solari, Paulistano e Paranóico

Comentários Recentes