Paulistano e paranóico: Ler um bom livro é como fazer amor com uma linda mulher

2 05 2008

Entre as prateleiras de sua biblioteca ocorre a primeira troca de olhares. Você vê um livro em meio ao oceano de capas. E o livro vê você.

Envergonhado, o livro se desvencilha de seu olhar. Ou ao menos tenta. Você se aproxima. Finge ler um ou outro volume, mostrando um desinteresse casual, mostrando comandar a situação. Até que você surpreende o livro de súbito, estendendo o braço em um movimento firme e direto em sua direção.

O toque inicial é o mais marcante. Você sente a capa dura palpitando em antecipação conforme sua mão se aproxima. O toque de sua pele com a madeira inerte ou o couro paralisa o tempo à sua volta. O tomo é retirado da estante e se entrega como uma manceba dominada pelos braços de uma divindade grega.

É preciso abrir suas páginas com carinho. Sentir o leve odor da madeira processada subir de encontro às suas narinas. É preciso fechar os olhos e deixar os seus dedos acariciarem a pele macia do papel. Ao abrir suas pálpebras, lentamente se revela a forma dos parágrafos, a sensível distribuição dos capítulos, as curvas sedutoras da fonte utilizada.

E é então que a magia começa.

É preciso se atirar para dentro das páginas abertas, furiosamente devorando com seus olhos e mente cada traço de informação. Desvendar os sonhos, os anseios, os medos e os mais secretos desejos de sua amante de celulose. Ler como se fosse a última, e a mais importante, ação de sua vida. Como se fosse o motivo pelo qual você nasceu.

A noite se afunda e você prossegue, incansável. O café se esvazia do bule enquanto você se entrega por inteiro para aquele universo. Você acompanha vidas, visita mundos fantásticos, compreende pontos de vista que seu cérebro jamais visitaria por si só, nem mesmo se você existisse por mil vidas.

Ao se elevar o carro de Apolo no horizonte com a chegada da manhã, você fecha a última página e finalmente se entrega ao cansaço. Exausto. Vitorioso. Satisfeito. Feliz.

Pelo menos… sei lá. Me falaram que com mulher é assim também.

por Solari





Desporto: Um Outro Grisham

27 04 2008

Nunca cogitei a hipótese de um dia ser interpelado e de certa forma advertido por não ter lido um livro de John Grisham. Tudo bem, “não exageremos”; vincular tal exigência a autores como Proust, por exemplo, seria inadequado para uma conversa informal e aparentemente despretensiosa - mas mesmo algo como “você nunca leu nada do Paul Auster?!”, convenhamos, seria mais aceitável. De qualquer forma, o evento ocorreu em 1999, quando eu cursava o segundo ano da faculdade de direito - e talvez isso tenha inspirado o questionamento da figura, tendo em vista que John Grisham, ex-advogado, escreve majoritariamente histórias que abordam o universo jurídico.

Hoje, quase dez anos depois, posso dizer que li John Grisham - noooossa… Um livro; que nada tem a ver com advogados, promotores, crimes, conspirações, etc. Trata-se de “Nas Arquibancadas”, de 2003 (Bleachers, no título original), que conta a história de Neely Creenshaw, ex-jogador do time de futebol americano da escola de sua cidade natal, que a ela retorna após alguns anos, para o iminente funeral de seu antigo treinador. A cidade retratada por Grisham - como muitas nos EUA - tem poucos habitantes, e nela tudo gira em torno do high school football.

O livro mostra como é ser considerado um verdadeiro deus aos 16, 17 anos; ter a vida facilitada por todos - e por um motivo “legítimo”; e o significado de tornar-se parte de uma tradição e ver tão cedo um universo “aberto” de conquistas pela frente - o que acaba não acontecendo para Neely Creenshaw, por conta de um acidente na faculdade. Grisham traz à tona elementos como educação, comprometimento, coleguismo, honra - e questiona, ao mesmo tempo, os limites para que tais valores sejam tocados. Tudo isso passando pela figura de Eddie Rake, treinador da equipe do colégio por décadas; rigoroso e vencedor - venerado e odiado.

Após ler “Nas Arquibancadas”, nada do que ouvi falar sobre outras obras de Grisham me estimoulou a uma nova leitura, até que me deparei com o seguinte enredo, difícil de ser ignorado, de “Jogando por Pizza”, lançado no ano passado (Playing for Pizza, no original): “O livro conta a história de Rick Dockery, um jogador de futebol americano fracassado, que, após mais um fiasco, não desperta interesse nem mesmo de um time da segunda divisão da liga, até que seu empresário lhe consegue uma vaga no Panthers - não o Carolina Panthers, nos EUA, mas sim o italiano Parma Panthers (que realmente existe, na Itália). Sem saber nada do novo país, Rick chega a Parma com uma promessa e, deixando a frustração de lado, vai aos poucos conhecendo melhor a cidade, a cultura, a maneira como os italianos encaram a vida e, sobretudo, as comidas parmigianas. (…).” Esta resenha, para registro, está publicada no Submarino, e vou logo encomendar meu exemplar - que está em promoção, cerca de R$ 20,00 - para embarcar nessa nova aventura esportiva do autor, que, mais um registro, também jogou futebol americano na escola. Você aí, já leu algum livro de John Grisham???

 

por Thiago