Paulistano e paranóico: O meu gato odeia mandarin

22 03 2008

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Ele pode parecer bonitinho, mas eu não chegaria muito perto se fosse você.

A primeira vez que ele manifestou sua aversão ao mandarin foi há mais ou menos nove meses. Estava começando a aprender o idioma chinês. Fiz algumas aulas, comprei um livro no qual comecei a me alfabetizar nos caracteres. Tomei o hábito também de ouvir o CD de pronúncia de um método interessante, feito para brasileiros que estão aprendendo a língua, e de pronunciar as frases enquanto desempenhava tarefas do dia-a-dia.

Até que certo dia o felino se grudou com as garras nas minhas costas enquanto eu lavava louça e repetia os meus 我是巴西人你呢s. Depois de me desvencilhar do danado - ele grudou de verdade, precisei me debater um pouco - passei uma água oxigenada nos cortes e olhei pro gato. O safado agora era a perfeita imagem da calma, dormindo tranqüilamente no sofá, como se nada tivesse acontecido. Tratei o assunto como mera aberração no comportamento do bichano e segui com minha vida.

Alguns dias depois estava estudando na sala. Estava entretido na repetição dos diferentes tons, coisa delicada no mandarin. Dependendo de como você pronúncia a mesma sílaba “ma”, por exemplo, você pode falar “mãe”, ou “quatro”, ou “cavalo”, ou “cansado”. Ouvir em chinês a frase “a mamãe está cansada de ver os quatro cavalos cansados” é no mínimo interessante.

Tinha certa dificuldade em diferenciar o segundo tom, que é semelhante ao que usamos em português quando fazemos uma pergunta, com o terceiro, que é mais longo e sobe e desce na mesma sílaba. E entre os meus estudos de 谢谢s e 你好s, não deu dez minutos e eu estava me debatendo pela sala com um bichano assassino nas costas.

Agora, eu sou um cara paciente, não descontei fisicamente a minha frustração no bicho e continuei a estudar na minha, mas eu SENTIA ele me espreitando. Comecei a ler de costas para a parede para não poder ser surpreendido, mas ele então avançou no meu pé.

Foi interessante também quando eu colocava o som num volume alto. Mais de uma vez ele pulou sobre a mesa e bateu com as batas contra a caixa de som, se eriçando até perder o interesse depois de alguns minutos. É, eu não tinha a tolerância à dor da caixa de som para agüentar um gato dilacerando as minhas costas até cansar.

Levantei algumas explicações sobre o fenômeno, nenhuma completamente satisfatória. Cheguei a pensar que pode ter a ver com o timbre da voz, sei lá. A Cecília falou que ele não gosta de chinês porque eles comem gato na China e de alguma forma ele presentia o perigo com uma espécie de “sentido aranha” como nos quadrinhos. Eu expliquei pra ela que na China eles não comem gatos, mas, quem diria, tem lugares que a churrasco de felino é sim bastante apreciado.

Levantei outras hipóteses como conspiração governamental (uma máquina de matar desenvolvida por alguma entidade secreta para enfrentar o comunismo?). Porém o assunto acabou caindo em desuso na minha cabeça. Depois de um tempo ele ficou mais calmo, não sofro um ataque já há alguns meses. Bem, ou é isso ou eu é quem estou ficando mais esperto na hora de perceber ele sorrateiro olhando pras minhas costas.

por Solari