Paulistano e Paranóico: O temido assento preferencial
5 04 2008Evito ao máximo sentar na cadeira cinza do metrô. A pressão é grande demais.
Isso já deve ter acontecido com você. Ao adentrar na grande lata o seu “sentido metrô” é disparado, tentando rapidamente identificar a presença de um lugar para sentar. E, para seu terror, o único local vago é um daqueles temidos assentos cinza.
Tremo só de pensar.
O assento reservado a idosos, gestantes e deficientes é uma das mais bem engendradas armadilhas de culpa criadas pelo intelecto humano. Claro que eles falam que “na ausência de pessoas nessas condições o uso é livre”, mas você vai estar fadado a passar o restante da sua viagem olhando aos lados e se sentindo um criminoso.
E aí entra aquele cinquentão de cabelo levemente grisalho e você fica se debatendo internamente para tentar decidir se ele é idoso ou não. Tenta analisar a sua postura corporal para identificar se ele se julga digno do Assento Cinza. Você olha para os lados tentando identificar o que os outros pensam a respeito. E mesmo que eles não o estejam mirando com os olhos, não tenha dúvida de que lhe analisam com sua visão periférica. Olhando você. Julgando você.
Você SENTE aqueles olhares te perfurando como dedos acusatórios voltados a um herege. Você tem medo de oferecer a cadeira e ofender o tal senhor. As pessoas se ofendem! Esse tipo de coisa acontece! Mas o pior não é se você não consegue identificar um idoso, o pior é quando você não sabe se uma mulher está grávida. E foi precisamente isso que aconteceu comigo uma vez.
Naquela ocasião, havia arranjado um belo lugar no assento cinza duplo devido à ausência de concorrência e tudo correu bem pelas primeiras estações de minha viagem. Apesar de não haver mais lugares convencionais disponíveis e algumas pessoas estarem de pé, o assento cinza a meu lado estava vago e muitos marmanjos não tem os colhões necessários para enfrentar a pressão social de se sentar na temida cadeira cinza. Não que eu tenha. Porém uma vida de intensa atividade intelectual e igualmente intenso sedentarismo físico tornou minhas pernas finas e impróprias para o esforço prolongado. Para mim sentar é questão de sobrevivência.
A lugar vago ao meu lado era uma delícia. Era a válvula de escape da minha culpa. Era um atestado vivo ao olhar de todos que de fato não havia “nenhuma pessoa naquelas condições” ou ela reivindicaria aquele assento. Mas uma velhinha de aparentes duzentos anos entrou e acabou com a minha festa. Começara a batalha psicológica.
Torcia para só gente nova e saudável entrasse na próxima estação e de fato foi o que aconteceu, mas logo adentrou na grande lata uma mulher de trinta e tantos anos com uma barriga que ambiguamente sugeria gravidez inicial ou excesso de cerveja com petiscos.
Levei um baita susto com o súbito grito do operador: “O uso dos assentos de cor cinza é preferencial. Respeite esse direito. Seja cidadão”. Parecia uma espécie de superego metálico pairando nos céus sobre minha cabeça. A minha vontade era gritar de volta “eu RESPEITO esse direito e eu SOU cidadão, mas como raios eu vou saber se essa pessoa merece o assento?!” Essa gente devia usar uma espécie de crachá roxo estampado no peito! Ou uma fita no braço, sei lá! Enfim, está lançada aqui a idéia para os administradores públicos.
A gestante em potencial olhava aos lados, pra cima, pra baixo, pra todo santo lugar menos pra mim. De repente eu olhei pra uma moça do lado e vi que ela estava olhando pra mim. Ela desviou o olhar, conforme a cartilha dos moradores das grandes cidades, mas percebi que ela estava querendo ver se eu ia ceder o lugar para barriguda misteriosa. Como se fosse culpa minha se a outra não deixava claro se ela tinha direito ao assento ou não!
Mas será que era gravidez mesmo, então? Sei lá, a outra passageira é mulher, deve entender dessas. Se ela está se achando que eu estou usurpando o assento outros passageiros podem estar pensando isso também. Aquele cara ali, ele também me deu uma olhada estranha! Todos sabem, todos eles sabem, tenho certeza! Mesmo sabendo dos riscos, precisei arriscar.
Me levantei e disse: “a senhora quer se sentar?”. A mulher pareceu não entender de cara que eu me dirigia a ela e demorou um tempo para processar o fato de que eu a chamei de ’senhora’. Depois eu vi em seu rosto ela se perguntando por que eu oferecia a ela o assento até que seu semblante foi revelando a dura realidade. Eu achei que ela estava grávida. E não foi preciso nenhuma palavra para perceber que ela não estava.
Ela me explicou em um tom tímido que não era uma gestante e baixou o olhar de um jeito humilhado. Envergonhado, corri pra fora na próxima estação e reembarquei no vagão ao lado. E qual não foi a minha surpresa quando o único assento disponível era de côr cinza. Tem vezes que o Universo demonstra ter um senso de humor bem caprichoso. Hahaha. Muito engraçado.
Jurei naquele dia que nunca mais meu traseiro encostaria no cinza do assento reservado a idosos, gestantes e deficientes. Pernas finas ou não, a pressão é grande demais.
por Solari
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Tags : metrô, São Paulo, paranóia, assento preferencial
Categorias : Guilherme Solari, Paulistano e Paranóico

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