Paulistano e paranóico: Conexión Caribe

12 04 2008

Moro com a mulher da minha vida.

Eu me apaixonei à primeira vista, ela me ama incondicionalmente e sei que não importa o que aconteça, não importa MESMO o que aconteça, ela vai sempre continuar me amando.

Adoro a minha mãe.

Claro que nem tudo é um mar de rosas em nosso relacionamento. Outro dia mesmo ela reclamou que eu ia passar de novo a noite de sábado em casa e me intimou pra sair e “ver gente”. Ver gente… raios, se eu quisesse ver gente eu me olhava no espelho!

Mas, enfim, se existe uma coisa que eu suporto menos do que contato humano é gritaria. Assoprei a poeira da minha agenda de telefones e liguei para alguns conhecidos sem obter sucesso. Todo mundo pra quem eu telefonei ou não atendia o celular ou já estava em algum lugar “vendo gente”. Vendo gente…

A elevação nos decibéis dos berros de minha mãe alimentou o meu desespero e eu acabei ligando pro Alexandre, o cara que fecha a página de esportes lá no jornal e que parece viver exclusivamente para a satisfação de seus desejos primários de futebol, sexo e bebida. Mas não está além de mim enxergar utilidade até mesmo nas mais baixas formas de vida.

O Alexandre pareceu não me reconhecer de cara e eu o lembrei que era o Guilherme da redação. “Gasparzinho!?”, ele perguntou e eu o lembrei de que não apreciava esse apelido. Ele afirmou que estava a caminho de um lugar chamado “Conexión Caribe” para dançar salsa ou sei lá o quê com umas amigas dele.

Odeio dançar. A minha idéia de diversão é se sentar como gente civilizada para uma troca estimulante de idéias acerca de assuntos culturais e filosóficos. Ficar arrastando o pé no meio de uma multidão de pessoas suadas é para mim uma punição digna das concebidas por Dante. Ouvi ao fundo minha mãe chorando na sala ao telefone, perguntando aos prantos a uma amiga onde é que ela tinha errado comigo. “Então”, inquiri ao Alexandre, “quando você pode vir me pegar?”

Em pouco tempo o Alexandre chegou em uma saveiro que entoava música sertaneja em um volume incondizente com o bom gosto. Havia duas mulheres no veículo, uma pendurada no pescoço de Alexandre como uma espécie de coala erótico e uma segunda que me mirava boquiaberta com um ar desapontado, provavelmente uma amiga do par do Alexandre que havia sobrado segurando vela. E que provavelmente ele ia empurrar pra cima de mim.

Ao entrar no carro, fui cumprimentado por todos e lembrei novamente a Alexandre que não gostava de ser chamado de “Gasparzinho”. Alexandre dirigiu da maneira imprudente de sempre até nosso destino com a conversa dentro do veículo girando em torno das preferências dos presentes sobre quem deveria vencer o Big Brother da vez. Ao me perguntarem qual minha escolha pessoal respondi que não assistia Big Brother. “Nossa”, disse minha acompanhante designada, “como você é alienado”.

A conversa se estendeu pelos 45 minutos que ficamos enfrentando o trânsito do sábado à noite da Vila Madalena e depois de ter que desembolsar sozinho 15 reais no estacionamento (Alexandre argumentou que “ele já estava gastando com a gasolina…”) chegamos no tal “Conexión Caribe”. Rapaz, se arrependimento matasse…

Não há registro em minha memória de lugar mais inóspito aos amantes da paz e da tranqüilidade. “Buraco Suado, Quente e Barulhento do Caribe” seria um nome mais apropriado para o estabelecimento.

Alexandre entrou cumprimentando os garçons pelo nome e em pouco tempo estava girando com seu par em meio à multidão enquanto portava latinha de cerveja em uma mão e cigarro acesso na outra. Percebi que meu par tentava uma aproximação ao perguntar qual o meu filme favorito. Respondi que apreciava “O Sacrifício” de Andrei Tarkovski, além de outras películas do cinema russo dos anos 70. Fiz, por educação, a ela a mesma pergunta. “As Panteras Detonando. Sei lá, elas se divertem tanto lutando contra o crime”, respondeu com um sorriso.

A resposta dela não me surpreendeu. Sabia que oceanos, VASTOS oceanos, separavam as nossas diretrizes estéticas, mas me surpreendeu o fato de que… sei lá… como explicar… eu achei aquilo… como dizer… charmoso. É. Eu achei aquele sorriso charmoso.

Ri junto da Beatriz, esse sendo o seu nome, e ela perguntou se eu queria dançar. Respondi que não sabia dançar. Ela disse que podia tentar. Respondi que não sabia dançar. Ela me puxou pelo braço e depositou minha mão em sua cintura. Cambaleei endurecido ao som e pisei vez ou outra no pé de minha acompanhante, mas, quem diria, eu estava legitimamente me divertindo. Beatriz, percebi, parecia estar se divertindo também. Vi Alexandre e sua namorada no fim do salão fazendo o sinal universal de “vai firme”. “Pois é”, pensei pra mim, “gente que vê Big Brother é gente também”.

Em pouco tempo estava dançando com umas tiazinhas de meia idade bastante empolgadas. Elas se chamaram de “Camarão” depois de um tempo, pois eu fiquei todo avermelhado após dançar diversas músicas, no entanto aquilo não me incomodou. Achei até divertido. Beatriz dançou com uns bailarinos do lugar, a namorada de Alexandre também. Diabos, até eu e o Alexandre dançamos juntos de brincadeira, muito para a diversão das duas. Eu também cheguei a beijar Beatriz (”Olha o Gasparzinho…”, gritou Alexandre no momento), mas não cabe a um cavalheiro comentar sobre determinadas coisas.

Quando dei por mim a noite virara manhã e Alexandre me levou em casa. Entrei no meu apartamento com uma sensação leve de felicidade e com o telefone de Beatriz no bolso.

Mamãe tinha razão. Até que não é tão ruim sair pra ver gente de vez em quando.

Mas só de vez em quando. ;)

por Solari





Paulistano e Paranóico: O temido assento preferencial

5 04 2008

Evito ao máximo sentar na cadeira cinza do metrô. A pressão é grande demais.

Isso já deve ter acontecido com você. Ao adentrar na grande lata o seu “sentido metrô” é disparado, tentando rapidamente identificar a presença de um lugar para sentar. E, para seu terror, o único local vago é um daqueles temidos assentos cinza.

Tremo só de pensar.

O assento reservado a idosos, gestantes e deficientes é uma das mais bem engendradas armadilhas de culpa criadas pelo intelecto humano. Claro que eles falam que “na ausência de pessoas nessas condições o uso é livre”, mas você vai estar fadado a passar o restante da sua viagem olhando aos lados e se sentindo um criminoso.

E aí entra aquele cinquentão de cabelo levemente grisalho e você fica se debatendo internamente para tentar decidir se ele é idoso ou não. Tenta analisar a sua postura corporal para identificar se ele se julga digno do Assento Cinza. Você olha para os lados tentando identificar o que os outros pensam a respeito. E mesmo que eles não o estejam mirando com os olhos, não tenha dúvida de que lhe analisam com sua visão periférica. Olhando você. Julgando você.

Você SENTE aqueles olhares te perfurando como dedos acusatórios voltados a um herege. Você tem medo de oferecer a cadeira e ofender o tal senhor. As pessoas se ofendem! Esse tipo de coisa acontece! Mas o pior não é se você não consegue identificar um idoso, o pior é quando você não sabe se uma mulher está grávida. E foi precisamente isso que aconteceu comigo uma vez.

Naquela ocasião, havia arranjado um belo lugar no assento cinza duplo devido à ausência de concorrência e tudo correu bem pelas primeiras estações de minha viagem. Apesar de não haver mais lugares convencionais disponíveis e algumas pessoas estarem de pé, o assento cinza a meu lado estava vago e muitos marmanjos não tem os colhões necessários para enfrentar a pressão social de se sentar na temida cadeira cinza. Não que eu tenha. Porém uma vida de intensa atividade intelectual e igualmente intenso sedentarismo físico tornou minhas pernas finas e impróprias para o esforço prolongado. Para mim sentar é questão de sobrevivência.

A lugar vago ao meu lado era uma delícia. Era a válvula de escape da minha culpa. Era um atestado vivo ao olhar de todos que de fato não havia “nenhuma pessoa naquelas condições” ou ela reivindicaria aquele assento. Mas uma velhinha de aparentes duzentos anos entrou e acabou com a minha festa. Começara a batalha psicológica.

Torcia para só gente nova e saudável entrasse na próxima estação e de fato foi o que aconteceu, mas logo adentrou na grande lata uma mulher de trinta e tantos anos com uma barriga que ambiguamente sugeria gravidez inicial ou excesso de cerveja com petiscos.

Levei um baita susto com o súbito grito do operador: “O uso dos assentos de cor cinza é preferencial. Respeite esse direito. Seja cidadão”. Parecia uma espécie de superego metálico pairando nos céus sobre minha cabeça. A minha vontade era gritar de volta “eu RESPEITO esse direito e eu SOU cidadão, mas como raios eu vou saber se essa pessoa merece o assento?!” Essa gente devia usar uma espécie de crachá roxo estampado no peito! Ou uma fita no braço, sei lá! Enfim, está lançada aqui a idéia para os administradores públicos.

A gestante em potencial olhava aos lados, pra cima, pra baixo, pra todo santo lugar menos pra mim. De repente eu olhei pra uma moça do lado e vi que ela estava olhando pra mim. Ela desviou o olhar, conforme a cartilha dos moradores das grandes cidades, mas percebi que ela estava querendo ver se eu ia ceder o lugar para barriguda misteriosa. Como se fosse culpa minha se a outra não deixava claro se ela tinha direito ao assento ou não!

Mas será que era gravidez mesmo, então? Sei lá, a outra passageira é mulher, deve entender dessas. Se ela está se achando que eu estou usurpando o assento outros passageiros podem estar pensando isso também. Aquele cara ali, ele também me deu uma olhada estranha! Todos sabem, todos eles sabem, tenho certeza! Mesmo sabendo dos riscos, precisei arriscar.

Me levantei e disse: “a senhora quer se sentar?”. A mulher pareceu não entender de cara que eu me dirigia a ela e demorou um tempo para processar o fato de que eu a chamei de ’senhora’. Depois eu vi em seu rosto ela se perguntando por que eu oferecia a ela o assento até que seu semblante foi revelando a dura realidade. Eu achei que ela estava grávida. E não foi preciso nenhuma palavra para perceber que ela não estava.

Ela me explicou em um tom tímido que não era uma gestante e baixou o olhar de um jeito humilhado. Envergonhado, corri pra fora na próxima estação e reembarquei no vagão ao lado. E qual não foi a minha surpresa quando o único assento disponível era de côr cinza. Tem vezes que o Universo demonstra ter um senso de humor bem caprichoso. Hahaha. Muito engraçado.

Jurei naquele dia que nunca mais meu traseiro encostaria no cinza do assento reservado a idosos, gestantes e deficientes. Pernas finas ou não, a pressão é grande demais.

por Solari